Por quê poesia não vende?

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:42:00 PM em , , | comentários (1)

Estive conversando com uns amigos, conversamos muito, e não conseguimos chegar a uma conclusão/solução, ou melhor, nem chegamos, depois de desfazer a pergunta, ficamos estagnados no início: Poesia não vende, ponto.
Talvez seria porque poesia não é necessária, mas consumimos muitas coisas que também não são. Compramos badulaques, trecos, até camisas, calças, sapatos que nunca usamos. Vi em um programa de televisão uma figura que tinha mais de cento e cinquenta pares de sapatos, se ela usasse todo dia um, coisa que duvido, ficaria cinco meses desfilando de sapato diferente, será que isso é necessário? Assisti o programa e nem sabia porque, logo não era necessário, mas eu estava lá, em frente a tv, consumindo essa porcaria! E o pior que tenho prova em minha, mal dita, memória!
E por que diabos que essas pessoas não consomem poesia? Os grandes, Drummnond, Pessoa, Quintana, Bandeira, até eles, sofrem com as vendas pífias, agora os pequenos, os poetas contemporâneos, aqueles que encontramos no bar ou na rua, coitados, nem se fala.
Creio que a sociedade moderna tornou o homem tão egoísta, que ele não está disposto para ter uma nova perspectiva, uma nova visão sobre um tema e até mesmo uma dor de cotovelo que não seja a dele mesmo. Muita informação esse homem recebe, mas a poesia não é apenas informação, ela dá recados ao coração, à alma, a sensibilidade desse homem, que não está acostumado, ou até, nem saiba que existe nele um coração, uma alma e a sensibilidade, e pior ainda! Talvez nem exista mesmo, vai ver o homem moderno já venha sem esses itens de fábrica.
Como já disse o grande poeta Roberto Piva: A poesia entendida como "instrumento de Libertação Psicológica e Total, como a mais fascinante Orgia ao alcance do Homem"

Meu amigo Peixe Grande

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:42:00 PM em , , | comentários (0)

Contar histórias é uma dádiva, mas nem todos sabem fazer isso, outros, por sua vez, fazem muito bem. Há aqueles, porém, que não só contam, mas também vivem suas histórias. A ortografia contribuiu com eles quando não mais diferenciou História – a ciência histórica, a disciplina que aprendemos na escola -, e Estória – narração fictícia, conto de origem oral e popular, fábula.
Tenho um amigo que é um fabulador nato, para uns um mentiroso de mão cheia, para outros um contador de histórias tão magnífico, que até ele chega a acreditar nelas. Seu nome? Não posso dizer, até mesmo porque se dissesse ele diria que é mentira. Chamamos ele de Edward Bloom, protagonista de Big Fish, quem assistiu a esse fabuloso filme saberá o que quero dizer, quem não assistiu, depois de ler esta crônica, vale a pena correr até uma locadora, uma das que ainda resistem firmemente, e dar uma conferida.
- (...) se ele contasse, ele apenas diria os fatos, não colocaria nenhum sabor... Essa fala de Ed Bloom resume bem o modo de enxergar a vida dele e desse meu amigo, - que talvez sejam o mesmo. Existem pessoas que gostam de retratar a vida por fatos reais, comprováveis, outros são grandes demais para a vidinha que levam, então preferem se referir a ela de forma impressionante. Não irreal, mas melhorada. Eles não mentem, não são caluniadores baratos, são poetas, criadores de novas realidades, dá mesma forma que os grandes escritores são. O objetivo é tornar suas histórias mais bonitas e atraentes para quem lê ou ouve.
Meu amigo vai a uma viagem inóspita, difícil, sei que lá ele viverá fatos terríveis, mas quando ele voltar, é certo que voltará bem, essas histórias se tornarão fantásticas, surreais, inacreditáveis e principalmente maravilhosas de se ouvir.

Você viu ou colocou poesia aqui?

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:41:00 PM em , , | comentários (0)

Um grande amigo meu veio com uma provocação: O poeta vê poesia nas coisas ou põe poesia nas coisas que vê? Sei lá, respondi. Não sabia mesmo, mas resolvi refletir um pouco.
É impossível tentar definir poesia em apenas trezentas palavras, mas vamos lá. Primeiramente devemos separar poesia de poema. Poesia é o conteúdo, esse conteúdo pode conduzir a transcendência, beleza ou emoção, e poema é apenas o texto escrito em versos. Assim, o poema pode ter ou não poesia. Já a poesia pode estar presente em um poema, um filme, até mesmo em um entardecer, enfim, em tudo que, de certa forma, percebemos pelo sentimento, ou pela emoção.
Acho que o poeta enxerga poesia onde outras pessoas não veem, para ele é ver a poesia já existente, para os outros, quem sabe, seja colocar poesia onde não existia. Conheço alguns poetas que jamais escreveram um poema sequer, mas em conversas sempre aparecem com uma sacada legal, uma visão diferente sobre alguma coisa. Ver poesia, talvez, seja estar perceptível as belezas do mundo, das coisas, dos homens e das ideias. Há uma definição que gosto muito, cujo autor não me recordo, diz assim: Poesia é o olhar incomum sobre os homens comuns.
Um dia escutei os versos da canção Relicário de Nando Reis: (...) Sobe a lua porque longe vai?/Corre o dia tão vertical/ O horizonte anuncia com o seu vitral/ Que eu trocaria a eternidade por esta noite (...) Achei maravilhoso, já imaginou trocar a eternidade por uma noite apenas? E pior, saber que será só uma noite? Eufórico cantei para um amigo, ele disse: Nada a ver, né? Se foi o Nando Reis que colocou nesses versos, ou se só eu consegui ver, não sei, mas que há poesia ali, há!

Metáfora e Ironia

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:39:00 PM em , , | comentários (0)

Você é um anjo! Você é um tesouro! Não leitor não é um diálogo de um casal de namorados apaixonados. São exemplos de metáforas, tá lá no dicionário: Figura de linguagem que consiste em estabelecer uma analogia de significados entre duas palavras ou expressões, empregando uma pela outra. (Aulete Digital).
Melhor do que saber o que é, é saber para que usamos, e olha que usamos muito..., utilizamos a metáfora para indicar uma comparação de alguma coisa, por exemplo: Você é um anjo! Quem diz isso, compara as qualidades do anjo: bondade, inocência, beleza, divinidade e etc a alguém. Os poetas usam em seus poemas a torto e direito para expressar o que querem dizer, dizendo outras coisas. Agora, quando dizemos: Você é um anjo! Com um tom de voz mais baixo ou mais pausada que o normal, querendo dizer o contrário disso, aí já é a ironia, outra figura de linguagem. Também a utilizamos muito no dia a dia, o pior é quase sempre ninguém entende.
Conheci um rapaz que não entedia metáfora e, muito menos, ironia. Era um inferno conversar com ele. Brincadeira então? E piadas? Já imaginou contar piadas a alguém que não consegue entender que o que é dito não é o que está sendo dito? Olha que o rapaz se dizia muito culto, era estudante de uma dessas universidades badaladas e tudo. Certa vez, falando sobre futebol, disse eu: É, o Corinthians dançou! Como assim dançou? Dançou o quê? Ele respondeu.
Tanto a metáfora como a ironia fazem da língua portuguesa, seja ela a culta ou a coloquial, uma das mais lindas e inventivas do mundo. Você não precisa saber o que é metáfora ou ironia para saber como alguém dança sem dançar e que esse rapaz devia ser muuuuito inteligente ...

A crônica

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:33:00 PM em , , | comentários (0)

Para dizer o que é crônica, começo dizendo o que ela não é. Não é uma notícia, nem uma reportagem, apesar de estar presente na imprensa e às vezes retratar acontecimentos diários e quase sempre ser escrita por jornalistas, mas também não é literatura, mesmo existindo livros de crônicas e ser escrita por muitos poetas e romancistas.
Você deve estar se perguntando: “Mas que raio, então, é uma crônica?” É um texto curto que geralmente é publicado por um jornal, escrita com uma linguagem simples, linguagem de dia-de-semana, – já diria o famigerado do Guimarães Rosa -, vira e mexe aparece com uma pergunta ou simulação de diálogo com o leitor. O cronista, o cara que escreve a crônica, se inspira em acontecimentos diários, presentes ou não na imprensa, mas ao fazer isso dá a ela um toque pessoal, apresenta um tema sob seu ângulo de visão singular, de uma forma leve, descontraída, por vezes até com uma pitadinha de fantasia, criticismo, ironia e por aí vai.
No Brasil, existem e já existiram ótimos cronistas, como por exemplo: Ferreira Gullar, Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Carlos Heitor Cony, Mário Prata que escrevem hoje em dia em grandes jornais, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Raquel de Queiroz e outros tantos que já atravessaram o rio, - como o grande poeta Thiago de Mello se refere àqueles que já nos deixaram. A crônica, por seu caráter espontâneo e quase oral é um texto adorado pelos brasileiros.
Enfim, a crônica é isso, fazer com que o leitor leia e se informe sobre algo, sem perceber, como o amigo leitor que chegou até esse último parágrafo fez, leu e se informou sobre esse gênero textual prazeroso de se ler e mais ainda, de escrever.

É engraçado como o passado retorna travestido de fantasmas. Os móveis já foram cobertos por lençóis brancos; os retratos das paredes, embalados e colocados em caixas de sapatos; os rastros de vida e cor, que habitavam os cantos dos cômodos e que tomam a forma de polaroides diárias, encerrados em estantes empoeiradas na garagem. E, ainda assim, pesadelos ainda geram as assombrações que me perseguem no calor do sol. É caso de estudo quando estas assombrações insistem em não serem enterradas (de bruços!) ou cremadas. Em namoros, por exemplo, enquanto um dos dois possui algo que é do outro, já é o suficiente para a ex-morta ressuscitar muito mais viva e latente do que um bebê (isso também serve para o sexo masculino). E isso fica mais incrível ainda, quando a ex-morta-viva tem não somente a pretensão de ser eterna, mas, ao mesmo tempo, de ser atual, aterrorizando os sonhos do ex-companheiro. As noites passam a ser longas e os dias, mais longos ainda. Os ponteiros dos relógios, nessa hora, parecem odiar o infeliz que foi “chutado” pela ex-namorada. Quando os pombinhos estavam juntos, os ponteiros também não eram bem vistos, mas é porque não damos a devida atenção a eles, pois temos coisas mais interessantes a fazer do que contar os segundos para a partida.
No entanto, em alguns relacionamentos que não acabam em funerais, shownerais ou circonerais, os cônjuges tornam-se, entre si, verdadeiros aliados; autênticos braços direito e de ferro do companheiro. Chegam a fazer até trabalhos e relatórios de faculdades, cursos ou qualquer outro estudo específico. E é tudo pelo bem da união e do amor. Minha mãe é um exemplo disso. Enquanto meu pai ralava e vendia o suor em troca de uma boa situação para a família, era ela quem fazia os trabalhos de faculdade para ele. Mas quem pegou o canudo foi meu pai. Contudo, para mim, o mérito é dos dois. Devia vir anexado no diploma dele, um outro, com os seguintes dizeres: Diploma de Honra e Mérito à senhora sua esposa, pois ela acaba de se formar, também, no nível superior.
A verdade é que todo esse companheirismo foi apagado como uma lavagem cerebral em nossa sociedade moderna. Somos egocêntricos. Egoístas. Contamos as nuvens com um pensamento que martela nosso interior: não preciso da ajuda de ninguém. Somos narcisistas. Mas, a culpa não é somente do indivíduo ou nossa. Todos os dias somos bombardeados com um mar de informações, modismos, comportamentos e entre tantas outras coisas. E chegamos a nos afundar em um mar tão sobrecarregado. Atualmente, é muito mais fácil um dos cônjuges “pagar” para ter o trabalho de faculdade pronto, do que pedir delicadamente e com carinho ao companheiro uma pequena ajuda, fortalecendo, assim, a relação. Desaprendemos a criar laços. Ganhamos a internet, a aviação e, até mesmo, a possibilidade de viver por cem anos, mas perdemos a afetividade entre nós. Transformamo-nos em um daqueles brinquedos de plástico, que ainda lembro de meu pai comprar, para me presentear no dia das crianças. Transformamo-nos em seres descartáveis. Por essa razão, as relações modernas do século XXI são como as pegadas e os recados românticos deixados na areia de uma praia qualquer, pois a próxima onda sempre leva, sempre apaga, seja maremoto ou calmaria, e deixando somente uma sombra, um fantasma que tem a pretensão de ser eterno.


(Adams Almeida Lopes, 07 de agosto de 2009)

Um maratonista brasileiro corre para superar obstáculos e os seus próprios limites. Corre por esporte. Corre pelo gosto de trazer uma medalha de ouro pendurada no pescoço. Corre pelo orgulho de ser patriota. Corre pelo orgulho que a família traz em seu seio.
Um trabalhador de uma grande cidade, uma metrópole como São Paulo, com seus braços e pernas engarrafadas e as artérias entupidas até às bocas, corre para atropelar os ponteiros do relógio, que batem fortes e impacientes. Corre para ser mais rápido que a bala de um revólver, que do outro lado da cidade ou do país, atinge um inocente ou simplesmente um viciado em crack. Corre para não deixar as suas demais bocas secas. Corre para a sua família não ouvir os cantos dos parasitas sugando-lhes as energias, a vida.
No sertão, nossos irmãos abandonados correm para não servirem de espantalhos para os grandes donos de postos de gasolinas ou de fazendas. No sertão, nossos irmãos marginalizados correm para não servirem de comida aos urubus, que competem com as moscas para saberem quem é o dono do ar, já que no chão alaranjado não há frutas e nem sinal de sementes de esperanças. No sertão, nossos irmãos desamparados sofrem com as leis, que ainda são as do Coronelismo e as do jagunço, do lampião. No entanto, agora, não se usam cavalos e garruchas de calibre 38, mas sim, automóveis e metralhadoras automáticas. No sertão, os homens acompanham, seguem e são massacrados pela modernização. Somente as leis continuam paradas nas linhas mortas e silenciosas de um livro amarelado, empoeirado e coberto de traças. Traças cabeludas, carecas, com bigodes ou sem bigodes. Há traças para todos os tipos de livros e leis.
Ainda assim, há pelo menos dois motivos que faz todo brasileiro correr com um sorriso estampado no rosto, de orelha a orelha e sem medo nenhum rastreando e vagando pelo corpo: o carnaval (rico em hormônios e feromônios) e o futebol (a paixão nacional!). Dá-lhe o Rio de Janeiro! Dá-lhe a Bahia! Dá-lhe a CBF! Dá-lhe o Pelé!
Somente assim, o povo corre contente, sorridoente, mesmo que seja para daqui a nove meses correr para lotar os hospitais até o teto, ou para nadar e morrer na praia, em um país qualquer, numa competição qualquer, numa copa qualquer, e não voltar nem com uma medalha de ouro no peito.
Dá-lhe o Brasil! Dá-lhe o brasileiro!
Samba, Brasil, que o samba é doce.
(Adams Alpes, 24 de julho de 2009)

Gripe causa status quo

Por Unknown | 7/21/2009 04:42:00 AM em , , | comentários (0)

Michael Jackson era um visionário. Custo a acreditar que, um homem que ditou modas e regras a todas as culturas distribuídas nesse planeta, tenha partido da forma como partiu: dessa para melhor, sem dar seu último grito, seu último rodopio, sem se despedir. Certo estava Michael. Eu não olharia para trás, para um mundo onde todos o crucificaram, em vez de abraçá-lo, como sempre clamou: como uma criança desprotegida, diante da boca de um leão, este último, transformando seus sonhos em pesadelos. Antes mesmo da gripe suína estrear nas telonas de todo o mundo, o guru da música pop já lançava moda com as suas “máscaras”. Atualmente, a gripe suína, para compensar a morte do astro-rei, faz com que as pessoas queiram utilizar, a cada dia que passa, mais e mais, esse acessório michaeljacksoniano e, a cada hora que finda, aumentam os adeptos da moda da “máscara”.
Há pouco, li nos jornais, que os hospitais no Rio de Janeiro e em São Paulo estão em uma situação em que salta gente pelas janelas para ser atendida. Tudo culpa da mídia. O mais engraçado é que o povo brasileiro fisga direitinho a isca e aglomera-se, metro por metro, nos corredores dos hospitais, transformando a saúde pública num caos. Mas, é exatamente isso que a mídia quer. Portanto, ter gripe suína no país do carnaval, é ter status. É entrar para o hall da fama das pessoas que pegaram uma epidemia mundial que entrou pelas portas da frente do país: com os turistas que, diariamente, entram e saem dos aeroportos do nosso país, com ou sem aquela afeição de bonzinhos, carentes e deslumbrados com tanta beleza (principalmente das mulheres), e que somente conhecem o carnaval, Pelé e, agora, o Ronaldo. No país do futebol, que pessoa não quer se gabar para os amigos e para a família, que esteve internado por causa de uma doença que pegou de um turista mexicano, espanhol ou norte-americano?
O fato mais cômico, e que chama mais a atenção, é que se fosse o dia nacional de doação de sangue, de doação de órgãos ou de doação de agasalho, com toda a certeza, e arranco meus ouvidos se eu estiver errado, os hospitais não estariam lotados de pessoas até à tampa, pulando pelas janelas, implorando para os médicos um minuto de atenção. Os bancos de sangue não estariam vivenciando um caos e a mídia, muito menos, divulgaria tal ação. Fato curioso: alguém já reparou que os médicos que realizam os atendimentos aos suspeitos da gripe suína não são adeptos aos acessórios da moda, como as máscaras, as luvas etc.? Muito menos os vejo usufruindo o banheiro e lavando as mãos a cada atendimento feito. É! A gripe suína é o caminho mais curto para se tornar emergente ou socialite. Um dia desses, meu pai, para conseguir uma meia-dúzia de gatos pingados para doar sangue no hospital público, teve que gastar a língua tentando convencer os amigos que um dia poderia ser um deles no lugar de quem precisa. Ainda assim, não conseguiu o impacto que queria. Também, meu pai não é nenhum “âncora” de um noticiário sensacionalista em uma dessas emissoras nacionais de televisão. Além disso, muitos ainda são os pré-conceitos nessa hora, como por exemplo, o medo de pegar doenças, entre outros. Engraçado: na hora de pegar a gripe suína, dentro de um hospital público, ninguém treme na base como vara verde, mas, há nora de doar sangue, o hospital causa uma vertigem, não é? É porque doar sangue não traz status quo a ninguém. Imagine-se em uma roda de amigos: se disser que doou sangue, ninguém aplaude. Ninguém assobia. Ninguém vibra. No entanto, se disser que esteve de cama durante alguns dias, por causa da gripe suína, todos irão te vangloriar, te encher de perguntas e fazer um busto para condecorá-lo. Na ocasião, torna-se até herói da cidade. O povo brasileiro é o que mais tem o rabo dos olhos virado para o próprio umbigo e não se importa com o dia de amanhã. Além disso, é um povo extremamente acomodado. Ainda mais depois que o Obama teve a coragem de dizer que nosso querido presidente Lula é o “cara”. Obama!, venha para o Brasil, meu querido. Venha viver alguns meses aqui. Encontre um barraco na Rocinha ou na Cracolândia, ou ainda, quem sabe, nas grandes cidades cosmopolitas, como as capitais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Você verá como é gostoso desejar ter gripe suína para aparecer no jornal, para ter fama e sucesso por quinze minutos. Você verá como a mídia manda e desmanda em um povo fraco e carente de uma nação forte, firme e com seus heróis, como super-homem. Você verá como é fazer parte de um povo sem identidade e que tem apenas um grito às margens plácidas do Ipiranga e, mesmo assim, falso e pintado à francesa. Um povo carente de heróis, pois não tem a menor ideia e não sabem quem são os verdadeiros heróis de nossa aquarela.
Ainda por cima, para complicar a minha crônica, moro em uma cidade onde tudo, exatamente tudo, “pula” nosso pequeno território. A chuva pula, o calor pula, o circo, os parques, até a gripe suína pula essa cidade. Sorte minha e azar dos meus colegas, já que não vão aparecer nos jornais, nem mesmo locais, sendo vítimas da gripe que fornece status quo social.


(Adams Alpes, 21 de julho de 2009).

O jazz, o sertão e o amor

Por Unknown | 7/18/2009 02:05:00 AM em , , | comentários (2)

Deitado em minha cama, pensamentos absurdos não permitiam meus olhos calarem-se. Pensamentos mal treinados insistiam em segurar com palitos os toldos dos meus olhos tão cansados pelas cores do dia a dia. Não eram um arco-íris, nem uma selva de pedra, como São Paulo, e nem amarela, vermelha e alaranjada como o sertão, que agora estava azul. Eram cores difusas, que agora se aglomeravam desordenadamente.
Em meio a tudo isso, descobri o amor. O jazz silenciou os pensamentos absurdos e brotou em meus olhos e coração o sertão, que agora estava debaixo d’água. O jazz me contagiou. Adentrou em meus ouvidos, alcançou meu coração, passeou pelas veias de meu corpo e alçou vôo à minha mente, um pouco perturbada pela madrugada seca e sonolenta. Pensei em corpos que mutilei em pensamentos impuros; no sertão que o sertanejo se enraíza por ele e por cada pedaço ou metro de terra laranja sem sabor de fruta; nas pessoas correndo solitariamente entre prédios, casas, fantasmas, desconhecidos sentados ou em pé em metrôs, que cortam o grande corpo humano que é São Paulo, mas dono de um coração grande, cheio, triste, solitário e duro, com sabor de cinza.
Embalado pelo jazz em minha cama, depois de lido que o Nordeste sofre um dilúvio e de sentir, num final de semana, que São Paulo é um grande vazio (apesar de transbordar de vidas), pude começar a entender o que é o amor. É a terra, que enquanto laranja e rachada sorri na face do sertanejo; é um estranho fazendo compras num supermercado e que continua desconhecido aos olhos de todos; sou eu, deitado na cama, com a caneta numa mão, o caderno na outra e nos ouvidos, o jazz, porque hoje, agora, estou jazz.
(Adams Alpes, Caçapava, 06 de maio de 2009.)


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