Palavras em choque

Por Fabiano Fernandes Garcez | 7/17/2011 08:45:00 PM em , | comentários (1)

A lei torna-se por
 vezes piada
música datada
   pele transpirada

campa pide
     lavrada, às vezes
       emana de um
capricho
qualquer

II Salão do livro de Guarulhos

Por Fabiano Fernandes Garcez | 4/24/2011 11:31:00 PM em , | comentários (0)


Fabiano Fernandes Garcez juntamente com o Lê Guarulhos 
participará do II Salão do Livro

2º Salão do Livro de Guarulhos realizar-se-á de 29 de abril a 08 de maio de 2011 no Parque Cecap na Rua Odair Santanelli, s/nº. O movimento de escritores independentes, intitulado “Lê Guarulhos”, vinculado a Associação Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico (APAH) participará desse evento com um Stand de nº 29, cedido pela Secretaria de Educação de Guarulhos.

Nessa oportunidade, você leitor poderá adquirir obras dos escritores com dedicatória e dedicação. Este evento faz parte de um conjunto de medidas de incentivo à leitura dos autores guarulhenses, voltadas aos professores de Guarulhos e educandos. Professores de toda rede pública e particular, serão beneficiados com descontos de 20% bastando apenas apresentar um comprovante de pagamento da escola.
Para localizar o stand 29 (Lê Guarulhos) acesse o mapa do evento na internet 


Autor da Matéria: Elmi El Hage Oma




As várias artes poéticas contemporâneas

Por Fabiano Fernandes Garcez | 4/18/2011 01:24:00 PM em , , | comentários (2)


http://www.revistazunai.com/ensaios/fabiano_fernandes_garcez_variasartespoeticas.htm



Discorrer sobre a produção poética contemporânea não é uma tarefa fácil. Dessa maneira, discorrer sobre a produção poética contemporânea, sem incorrer em erro, de qualquer espécie, é uma tarefa árdua.
É quase impossível tentar “mapear” a poética contemporânea. Primeiro, devido ao grande número de poetas brasileiros, que, sobretudo após a internet, torna, a cada dia, a tarefa mais difícil; no entanto, alguns poetas ganham destaque nos meios de comunicação, na crítica ou na própria internet. Segundo, porque é extremamente difícil fazer uma análise de qualquer estrato do tempo em que estamos inseridos.
Neste texto, tentarei apresentar os diversos tipos de poéticas existentes, mas não citarei nenhum poeta como representante, porque cada um carrega uma enorme palheta de diferentes influências, pois não é o objetivo do texto criar rótulos literários para a poesia contemporânea. Assim, prefiro fazer uma breve análise das várias tendências poéticas ou, como gostam alguns críticos, famílias poéticas, uma vez que essa separação, ou aglutinação de poeticidades, pode ser, no mínimo, enganosa, pois são raros os poetas que se mantêm em apenas um estilo de texto.
Com isso, sem muitas idas e vindas, chamaremos de contemporânea toda a produção de poetas que publicaram após os anos de 1945 do século passado. Dessa forma, antes de apresentar esses estilos ou famílias poéticas, vejamos algumas definições do mais cultuado e conceituado crítico brasileiro, Antonio Cândido, que, em seu livro O estudo analítico do poema, define o emprego da palavra como imagem ou símbolo.
A base de toda imagem, metáfora, alegoria ou símbolo é a analogia, isto é, a semelhança entre coisas diferentes. E aqui encontramos, no plano dos significados, um problema que já encontráramos no plano das sonoridades como sinestesia: o da correspondência. Com base na possibilidade de estabelecer analogias o poeta cria a sua linguagem, oscilando entre a afirmação direta e o símbolo hermético. Raramente o poema é feito apenas com um ou outro destes ingredientes polares, e na sequência dos versos somos capazes de notar a gradação que os separa. Muitas vezes, o elemento simbólico não está na peculiaridade das palavras, ou na sequência de imagens, mas no efeito final do poema tomado em bloco. E em tudo observamos a capacidade peculiar de sentir e manipular palavras. (Cândido, 1993).

Assim, tendo como base a figuração das palavras, Antonio Cândido aponta três tipos de poemas. Para o primeiro tipo, o poeta usa todas as palavras em seu sentido próprio, mas a combinação dessas palavras cria um conceito figurado.
Pode, mesmo, dar-se o caso de o poeta não usar uma só palavra figurada, mas combinar de tal modo as palavras em sentido próprio, que elas se ordenam como um conceito figurado, uma realidade diversa do que as palavras exprimem em sentido próprio. [...] O sentido geral do poema é figurado, talvez um símbolo, enquanto o sentido de cada palavra é próprio. (Cândido, 1993).


O segundo tipo, é o que traz a maioria das palavras em sentido figurado, sendo usadas como imagens ou símbolos. Entretanto, mesmo as que estão em seu sentido próprio ganham valor de imagens simbólicas. Assim, todos esses símbolos são partes de um todo no poema.
Outro caso é o dos poemas em que praticamente todas as palavras são figuradas, embora umas se apresentem como tais, outras não. São usadas de modo que, mesmo sem parecerem imagens, sofrem uma alteração de significado, que vai resultar na alteração geral mencionada nos casos anteriores. […] Os demais apresentam realidades não figuradas, mas próprias. No entanto, a direção de mistério que orienta o poema faz com que cada palavra pareça figurada. O sentido figurado geral já esta prefigurado nestas palavras usadas como imagens sem o serem propriamente, pois todas são provavelmente símbolos. (Cândido, 1993).


Logo, Cândido define a alegoria desta maneira:
[...] alegoria, isto é, num tipo de linguagem figurada que, por meio da sequência das imagens, ou dos conceitos, resulta numa distorção geral do sentido. (Cândido, 1993).


Além desses dois tipos de poemas, Antonio Cândido chama a atenção para um terceiro: aquele que traz em cada palavra, ou verso, um sentido figurado, mas o poema, como um todo, é claro e explícito.
[...] temos um processo comum na poesia, que consiste em organizar logicamente, racionalmente, um pensamento poético que em si é ilógico, pois está baseado na alteração dos significados normais das palavras. Resulta ao mesmo tempo, no fim do poema, um sentido geral claro e expressivo, e um sentido figurado em cada parte, ambos colaborando para o efeito poético total. (Cândido, 1993).

Dessa maneira, nem é apenas de metáforas que se faz um poema. Com isso, Ezra Pound (1934-1972) indica três procedimentos básicos para sua criação:
1)      Melopeia: musicalidade dos versos a partir dos recursos sonoros e fonéticos, como o ritmo do poema, a aliteração, assonância, entre outros;
2)      Fanopeia: a criação de imagens por meio das palavras dos versos; é o apelo à imaginação visual do leitor;
3)      Logopoeia: é a criação da mensagem do poema; recursos linguísticos intelectuais ou emocionais.
Portanto, para a produção poética requer-se a manipulação da linguagem, e é por meio de recursos linguísticos do significante (palavra) e do significado (ideia) que o poeta cria, ou recria, o seu mundo, dialogando com ele. Assim, Décio Pignatari afirma que o poema é um ser de linguagem.
O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo, O poeta é radical (do latim, radix, radicis = raiz): ele trabalha as raízes da linguagem. Com isso, o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. É por isso que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. É por isso que um (bom) poema não se esgota: ele cria modelos de sensibilidade. É por isso que um poema, sendo um ser concreto de linguagem, parece o mais abstrato dos seres. É por isso que um poema é criação pura — por mais impura que seja. É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substituí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada. (Pignatari, 2004).

Entretanto, esse diálogo nem sempre é harmônico. Sobre isso, Roman Jakobson afirma:
A poesia vive em conflito com o tempo e o pensamento e manifesta essa tensão na linguagem, construção estética que dialoga com a história, pessoal e coletiva, ao mesmo tempo em que afirma sua própria identidade como artefato artístico [...] (Toledo, 1971).

Dessa forma, é essa construção estética que interessa ao nosso estudo. Se a poesia vive em conflito com tempo e o pensamento, como afirma Jakobson, de que forma a poesia brasileira sobrevive em uma sociedade capitalista de consumo? Sociedade esta que torna o homem anônimo, mais um em uma grande massa de manobra do sistema de capital. E esse homem está sem voz. A poesia tenta restaurar, nesse homem, a sua individualidade. Talvez seja por isso o visível aumento das publicações de poesia, por pequenas ou médias editoras; edições financiadas pelo próprio autor; suplementos; periódicos; e até mesmo publicações em vários formatos nos meios virtuais.
Sobre essa produção poética contemporânea, o crítico Manuel da Costa Pinto afirma haver duas vertentes:
Existem duas ideias sobre a poesia brasileira que são consensuais, a ponto de terem virado lugares-comuns. A primeira diz que um de seus traços dominantes é o diálogo cerrado com a tradição. Mas não qualquer tradição. O marco zero, por assim dizer, seria a poesia que emergiu com a Semana de Arte Moderna de 22. A segunda ideia, decorrente da primeira, é que essa linhagem modernista se bifurca em dois eixos principais: uma vertente mais lírica, subjetiva, articulada em torno de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; e outra mais objetiva, experimental, formalista, representada por Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto e a poesia concreta. (Pinto, 2004).

O jornalista e poeta Rodrigo Garcia Lopes, em seu artigo “Muito além da academídia: Poesia brasileira hoje”, publicado na revista Coyote, fez severas críticas aos critérios adotados por Manuel da Costa Pinto:
A presença de uma palavra como "consenso", logo na segunda linha de um livro que promete mostrar "a diversidade da nossa história poética e ficcional" (p. 10) é no mínimo perigosa. Como vimos com Noam Chomsky, o conceito de consenso, nas sociedades democráticas, é manufaturado, escamoteado, quase sempre para favorecer instituições (fundações, universidades, imprensa, academias, editoras) e os interesses dos grupos dominantes e hegemônicos da sociedade. A fabricação desse consenso se dá todos os dias, e a mídia é quem cuida disso, através de fórmulas prontas e muitas vezes subliminares. É a lógica do mercado interferindo na mente dos cidadãos. Ideias não são consensuais. São um campo de batalha. A poesia não pode ser consensual, pois sua prática, idealmente, é ser não conformista. (Lopes, 2005).

Mais adiante, o doutor em literatura, Fábio Cavalcante de Andrade, estabelece quatro tendências:
1. Poesia Marginal, surgida como resposta direta ao clima opressivo do regime militar, buscando espontaneidade e o retratismo do cotidiano político;
2. Poesia Visual, herdeira e continuadora de determinados procedimentos do concretismo, bem como de outras vanguardas;
3. Poesia de Renovação das formas tradicionais e do cotidiano, indicando obliquamente uma forte presença de poéticas como as de Drummond e Manuel Bandeira, mas onde também se pode encontrar certo classicismo;
4. Poesia Hermética, acrescentando ao cânone brasileiro uma série de poetas difíceis, obscuros, apresentando ainda grande parentesco com valores da alta modernidade. (Andrade, 2008).

Portanto, é sobre essas quatro tendências que tentarei discorrer, mesmo sabendo que toda e qualquer classificação é arbitrária e provisória, porém necessária para uma tentativa de mapear as várias linhas ou estilos da poética contemporânea.

Poesia Marginal
A poética denominada Marginal, também conhecida como geração mimeógrafo, nasceu nas décadas de 1970 e 1980, anos da ditadura militar. É uma poética engajada, rebelde e revolucionária, sem preocupações estéticas e de acentuada informalidade. Essa poética também é marcada pelos recortes do cotidiano. Heloísa Buarque de Hollanda, na antologia Esses Poetas, primeiro registro dessa poética, acaba inserindo a poética surrealista paulistana pautada pelo registro espontâneo às experiências com a escrita automática. Os poetas marginais participavam de todo o processo do livro, da criação, manufatura e venda. A este respeito, no prefácio da coletânea da segunda edição, Heloísa escreve:

Frente ao bloqueio sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde com o antigo leitor de poesia. Planejadas ou realizadas em colaboração direta com o autor, as edições apresentam uma face charmosa, afetiva e, portanto, particularmente funcional. Por outro lado, a participação do autor nas diversas etapas da produção e distribuição do livro determina, sem dúvida, um produto gráfico integrado, de imagem pessoalizada, o que sugere e ativa uma situação mais próxima do diálogo do que a oferecida comumente na relação de compra e venda, tal como se realiza no âmbito editorial. A esse propósito, convém lembrar a tão frequente presença do autor no ato da venda o que de certa forma recupera para a literatura o sentido de relação humana. (Hollanda, 1998).

Poesia Visual
Essa poética é herdeira da vanguarda concretista, mais principalmente do poeta francês Mallarmé, e próxima das artes plásticas e dos meios tecnológicos. Faz a união entre a cultura pop, de massa, com a publicidade, a música, sobretudo o videoclipe. Poética que utiliza a escrita como elementos gráficos, além de outros recursos visuais, como as colagens, os grafismos e os diferentes alfabetos. Segundo o crítico e poeta Claudio Daniel, em seu artigo, “Pensando a Poesia Brasileira em Cinco Atos”, publicado na revista paranaense Coyote, é uma linguagem de futuro promissor, devido ao avanço tecnológico.
É possível supor que, dentro de uma ou duas décadas, as novas gerações possam unir o conhecimento dos livros com o manejo tecnológico, tendo condições ideais para desenvolverem poemas interativos, aprofundando as propostas das vanguardas históricas. Será essa, porém, a única via para a experimentação poética? Ou é possível prosseguir com o ideal de invenção no poema-texto? (Daniel, 2005).

Poesia de Renovação das formas tradicionais e do cotidiano
Conforme descrito por Manuel da Costa Pinto, essa poesia está ligada ao cânone modernista, principalmente a dupla Bandeira e Drummond; é de uma vertente mais lírica e subjetiva da experiência da vida comum e cotidiana, também marcada por uma forte intertextualidade, e apresenta várias formas: a fixa (sonetos, odes etc.) ou a livre. É conhecida por geração 60, mesmo que alguns de seus representantes tenham publicado antes ou depois. Sobre essa vertente, Fábio Cavalcante afirma:
Na geração de 60 é possível reconhecê-los, aqueles que cultivaram o lirismo, através de formas fixas ou livres, ressaltando ou ocultando o sujeito lírico, e mantendo a experiência humana como fonte fundamental de suas inquietações e órbita incontornável do poema. Do ponto de vista técnico, apresentam diversidade e facilidade de locomoção entre registros formais diferentes. Do soneto a uma canção, dos versos livres à criação de novas formas fixas. Em todos, porém, sente-se a proximidade de uma experiência vital de vida, que não desaparece no formalismo de vanguarda nem na facilidade da expressão espontânea. Nem o fetiche da inovação nem a suposta liberdade do engajamento. São poetas responsáveis pela manutenção, ao longo de três décadas, do terreno literário, protegendo-o contra a infertilidade na qual muitos marginais caíram, e contra as experiências malogradas da vanguarda mais radical. (Andrade, 2008).


Poesia Hermética
Essa poética é chamada de hermética por apresentar uma linguagem elaborada, sem articulação léxica, por vezes obscura ou enigmática. Com isso, Fábio Cavalcante afirma:
O Hermetismo poético é senão a principal, uma das principais formas da expressividade moderna, uma espécie de platonismo às avessas: quanto mais distante do retratismo, da mera cópia da realidade, mais verdadeiro aos olhos dos poetas. (Andrade, 2008).


Essa poética ganha força a partir dos anos 1990. É herdeira de várias fases do Modernismo, principalmente das mais radicais e experimentais, como a poesia concreta; dos poetas João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes; dos poetas marginais; e também das culturas primitivas, orientais, bem como da cultura pop. Claudio Daniel, em seu artigo “Uma escritura na zona de sombra”, afirma:
A diversidade de linhas de pesquisa e processos de criação, signo dinâmico da nova poesia, requer não o estático, mas o mutável, sem a hegemonia de uma única concepção, e aponta ainda em outras direções luminosas. O tempo exige poéticas em mandala, arco-íris, cauda de pavão, e desencasula formas e cores como um tapete marroquino [...].
Os poetas atuais não comungam de um mesmo credo, mas têm como princípio básico a noção do poema como um elaborado artefato de linguagem — e não apenas isso. O meticuloso artesanato das palavras soma-se à investigação de novos repertórios simbólicos e culturais do Ocidente e do Oriente, da escritura e de outros códigos de expressão, de um passado remoto ou da atualidade — como resistência. (Daniel, 2000).


O poeta e ensaísta continua sua afirmação e, em seu artigo “Geração 90: uma pluralidade de poéticas possíveis”, divide essa poética em quatro grupos. São eles:
Neobarroco – A poética da “pérola irregular”
De elevado grau de elaboração de linguagem algumas similaridades formais, como o uso da metáfora, a riqueza imagética, as referências à pintura, à fotografia e ao cinema, o vocabulário erudito e a sintaxe fraturada, que não elimina o discurso, mas o redimensiona de maneira inventiva. São poemas que se afastam da espacialização gráfica e da fragmentação léxica do concretismo e também da linguagem coloquial e prosaica da “geração mimeógrafo”, aproximando-se de uma construção mais hermética ou barroquizante que exige do leitor uma cumplicidade de repertório e uma não menos árdua estratégia de leitura. O verso não é abolido, mas reconstruído para além da camisa-de-força da métrica e das facilidades oferecidas pelo verso livre, abrindo um campo de experimentação para a poesia enquanto elaboração verbal.

Minimalismo – A poética da arquitetura concentrada
A construção poética concisa, fragmentária, que condensa os recursos da linguagem e se choca com violência contra a sintaxe discursiva e a própria noção de verso define a tendência minimalista. O principal recurso estilístico utilizado por essa tendência é a metonímia, aliada à elipse, embora apareçam também metáforas de sabor surrealizante, que derivam dos tender buttons de Gertrude Stein. A esse respeito, Manuel da Costa Pinto fala em “justaposição de frases nominais, refratárias às correlações lógicas”, e ainda de uma “língua desconexa”.

A poética do formalismo informal
Incorpora elementos implícitos do cinema em suas próprias estruturas — cortes, fusões, sequências, closes, flashbacks, silêncios, ruídos (idem). A influência do cinema, da música popular, da filosofia oriental, da mitologia beat e das histórias em quadrinhos é visível. São poetas que mesclam referências cultas às linguagens da comunicação de massa, explorando também o imaginário e as formas estéticas de culturas não ocidentais, como os mitos indígenas e a poesia chinesa e japonesa. O resultado desse sincretismo é uma poesia de dicção coloquial, melódica e fluente, com o uso eventual de rimas, aliterações e do verso longo, próximo à prosa, mas sem desprezar o uso espacial das linhas na página. A imagem é um elemento importante para a articulação do seu pensamento, com o uso de closes e cortes metonímicos para a descrição de cenários da natureza.

Etnopoesia – A poética da miscigenação transistórica

A recriação de formas poéticas de culturas antigas e não ocidentais, como o oriki africano, o sijô coreano ou os cantos xamânicos de tribos esquimós corresponde a uma tendência conhecida como etnopoesia.  (Daniel, 2008).


Portanto, esta análise tem como propósito apresentar algumas das possibilidades poéticas contemporâneas, porém sabendo de sua pluralidade criativa, e que essas possibilidades são e estão vivas, crescendo, metamorfoseando e frutificando-se, impossível de alocar-se em prateleiras estáticas reducionistas.





Referências



ABAURRE, Maria Luiza Marques. “Como ler um poema?” In: ABAURRE, Maria Luiza Marques; PONTARA, Marcela.  Literatura Brasileira: tempos, leitores e leitura. São Paulo: Moderna, 2006.

ALEXANDRE, Alberto. Tentativa de Pôr Ordem na Casa. MASSI, Augusto (org.). Artes e Ofícios da Poesia. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1991, pp. 24-25.

ANDRADE, Fábio Cavalcante. A transparência impossível: lírica e hermetismo na poesia brasileira atual / Fábio Cavalcante de Andrade. – Recife: O Autor, 2008. 331 folhas: ilustrado, quadro.

ANTUNES, Arnaldo. “Prefácio para o livro ‘Não’, de Augusto de Campos” In: CAMPOS, Augusto de. Não. São Paulo: Perspectiva.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1990.

CÂNDIDO, Antônio. O estudo analítico do poema. São Paulo: FFLCH-USP, 1993. (Terceira leitura, 2).

DANIEL, Claudio. “Geração 90: uma pluralidade de poéticas possíveis”. In: Protocolos críticos. São Paulo: Iluminuras / Itaú Cultural, 2008.

DANIEL, Claudio. “Pensando a Poesia Brasileira em Cinco Atos”. Revista Coyote, Londrina, n° 13, pp. 48-51. 2005.

DANIEL, Cláudio. “Uma escritura na zona de sombra”. Babel. Revista de poesia, tradução e crítica, nº 3, set.-dez. 2000.

OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. “Do poema ao vídeo e à instalação: o poético nas artes contemporâneas”.

Esses Poetas – uma antologia dos anos 90, (organização), p. 318. Aeroplano Editora, RJ, 1998.

ESTEBAN, Claude. Critica da Tazfio poética. Trad. Paulo Azevedo Neves da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

FERREIRA, Valéria Rosito. “Poesia contemporânea em Arnaldo Antunes: ventando as palavras, alforriando as coisas”.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. 26 Poetas Hoje, (organização, 2ª edição) RJ, Aeroplano Editora, p. 270. RJ, 1998.
___________.__________________. Esses Poetas – uma antologia dos anos 90, (organização), p. 318. Aeroplano Editora, RJ, 1998.

JAKOBSON, R. e TYNIANOV, J. “Os problemas dos estudos literários e linguísticos”. In: TOLEDO, Dionísio de Oliveira. (org.). Teoria da literatura — formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1971.

LOPES, Rodrigo Garcia. “Muito Além da Academídia: Poesia Brasileira Hoje”. Revista Coyote, Londrina, n° 12, pp.48-51. 2005.

PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética. São Paulo, Ateliê Editorial, 2004.

PINTO, Manuel da Costa. Literatura brasileira hoje. São Paulo: Publifolha, 2004.

SISCAR, Marcos. “A cisma da poesia brasileira”. In: Sibila. ano 5: n° 8-9: 2005, pp. 41- 60. São Paulo.

“Terça-Nada, Marcelo”. Livro Objeto/Poesia Objeto!

VASCONCELOS, Maurício Salles. “Poesia Contemporânea Nacional. Reincidências e passagens. Aletria”. Revista de estudos de literatura, 6. Poesia Brasileira Contemporânea. Faculdade de Letras da UFMG, CEL, 1999, pp. 18-2

minha homenagem:

Por Fabiano Fernandes Garcez | 1/25/2011 12:06:00 PM em , , , | comentários (0)

SÃO PAULO

Planalto de piratininga,
País dentro de um país,
Túmulo do samba, locomotiva do Brasil
E terra da garoa

Esta é São Paulo
Onde se encontram
O guri, o piá, o garoto e o moleque
Que ficam à toa

São Paulo do pobre paulista
Dos albergues do centro,
Do jardim angela, guianazes,
jardim joamar e jova rural

São Paulo do rico paulista
Da vila Madalena, Pinheiros,
Moema e Avenida Paulista
Símbolo do capital

Os carros da vinte e três
Os prédios da Faria Lima
E os pedestres da Barão

Da galeria do rock
Do largo São Bento
E a Ipiranga com a São João

A noite eu rondo
A cidade iluminada
Tudo posso encontrar

Sempre disseram
Que São Paulo
Nunca pode parar

Ra ta ta tá o metrô
Vai passar e te levar
Do norte ao sul
E de leste ao oeste

Trem, ônibus, táxi,
Motos, helicópteros
E a ponte aérea
na maior capital do nordeste

O punk da periferia
Da Freguesia foi ao Brás
A convite do Ernesto

Faixas, placas e bandeiras
Ruas interditadas
Em dia de protesto

São Paulo das marginais,
Pontes, viadutos,
O elevado e a radial

São Paulo dos marginais
Pedintes na rua
Do bom e o mau policial

Rebelião na Febem
Hospitais lotados
Briga de torcidas
E enchentes

Shoppings, cinemas,
Teatros, shows
E restaurantes
de todos os continentes

Alguma coisa acontece
Em qualquer esquina da cidade
Sou paulistano com felicidade

Assim é o Tom seu Zé
Apesar de todos os defeitos
São Paulo te carrego no peito.

(Poesia se é que há pág. 16)

mesa cadeira sofá rack

Por Fabiano Fernandes Garcez | 1/20/2011 03:17:00 PM em , , , , , | comentários (2)

.




mesa cadeira sofá rack
nadando nas águas
da sala

o fogão e a geladeira
atolados no barro mal cheiroso
ficaram

não saíram porta a fora
com o armário e o guarda-roupas,
as fotos em preto e branco

e a dignidade desp ed aç a d a

por essas águas

só resta se renovar

(Em meio aos ruídos urbanos)

Quando a enchente

Por Fabiano Fernandes Garcez | 1/20/2011 03:15:00 PM em , , , , | comentários (0)

.


Quando a enchente
que escorria pela rua
lhe alagou a cintura

soterrando todos
os sonhos cotidianos

a única coisa
não banhada pela tragédia
foi a imagem do desespero
desdobrado:

“Daqui pra baixo éramos água,
daqui pra cima,
gente”

(Em meio aos ruídos urbanos)







http://www.leguarulhos.com.br/

Há liberdade da imprensa?

Por Fabiano Fernandes Garcez | 10/29/2010 11:11:00 AM em , | comentários (2)

por Fabiano Fernandes Garcez

Você conhece aquela anedota do rapaz que passeava próximo ao estádio do Morumbi e viu que um Pit Bull iria atacar uma criança, então um homem aparece e mata o animal, salvando a garotinha. O rapaz, comovido com a cena, se identifica como jornalista e diz que colocaria a seguinte manchete em seu jornal: São paulino salva garota indefesa de animal feroz! O homem agradece, porém diz que não é são paulino e sim corintiano, no dia seguinte a manchete é: Corintiano assassina animal de estimação!

O interessante da piada, além da brincadeira com o clichê futebolístico e preconceituoso, é a reflexão que podemos tirar das manchetes, afinal, nenhuma delas é mentira. O Pit Bull é feroz e também é um animal de estimação, porém ao escolher determinadas palavras o autor do texto acaba por revelar um determinado juízo de valor, ou seja, o fato não foi fabricado, como acontece com muitos fatos no campo do jornalismo esportivo, no entanto a forma de transmissão desse fato foi manipulada. Nenhuma escolha semântica passa incólume, cada palavra que usamos a escolhemos para servir às nossas convicções, ideais, ideologias e, principalmente, interesses.

Nestes últimos dias, período de eleição, podemos notar que as grandes instituições jornalísticas —rádios, TVs, sites e jornais—, estão preocupadíssimas em eleger seus candidatos preferidos, —é necessário dizer que a maioria prefere o mesmo candidato? Jornalistas, articulistas, colunistas, cronistas publicam em seus espaços tentativas de justificar suas escolhas eleitoreiras ou seria a tentativa de induzir o leitor? É como escolher um dos termos animal feroz ou de estimação e depois apresentar justificativas para isso.

Alguns argumentos utilizados por esses jornalistas é o fim da liberdade de imprensa, porém muitos se esquecem que o fim da liberdade de imprensa começa dentro da própria imprensa, vide o caso, mais recente, da colunista Maria Rita Kell que foi demitida por defender o Bolsa Família em sua coluna no Estado de São Paulo, outro foi a saída do jornalista Heródoto Barbeiro do comando do programa Roda Viva, da TV Cultura, por fazer uma pergunta ao candidato José Serra sobre os caríssimos pedágios das estradas paulistas, ainda na TV Cultura existe outro caso, mais antigo, a jornalista Salete Lemos foi demitida por justa causa do jornal noturno da emissora por criticar as tarifas ilícitas cobradas pelos maiores Bancos brasileiros. Há alguns meses conversando com um jovem jornalista, jovem no sentido estrito da palavra, sem a atribuição de um valor negativo como: imaturo ou inseguro, me confidenciou que duas de suas matérias foram recusadas por seu editor, uma delas, sobre problemas de uma escola estadual, porém ele conseguiria atribuir o problema, não me lembro qual era, a União, a outra não poderia ser publicada por falar mal de “nosso patrão”, o governo do Estado de São Paulo.

No dia 27/10/2010, vi a capa do jornal O Estado de São Paulo e não havia nenhuma manchete sobre o escândalo da vez: A paralisação das obras do metrô de São Paulo por denúncias de fraude na licitação da linha Lilás. O que isso prova? Que a imprensa vive sobre a ditadura ideológica de cada jornal ou emissora ou até mesmo da instituição patrocinadora desses veículos, só um exemplo o contrato do Governo de São Paulo com o Grupo Abril é de R$ 3,7 milhões. Resta saber se que ouvimos, lemos ou vemos são realmente opiniões de seus autores ou é apenas a ordem dos donos dessas instituições, porque sabemos que caso discordem não se manterão no emprego.

O jornalista Heródoto Barbeiro quando entrevistado, disse que a função da imprensa é ser neutra, porque ninguém é imparcial, pois, segundo ele, somos humanos e temos opiniões e convicções. Será que a imprensa de hoje é mesmo neutra ou está mais para cabo eleitoral?

O leitor atento e crítico tem ferramentas para diferenciar cada caso, no entanto de todos os leitores do Brasil, quantos são atentos e críticos?

Infelizmente hoje a grande mídia reflete o bipartidarismo da cena política brasileira. Político com rabo preso é encontrado aos montes, não que isso seja natural, não é, mas menos natural ainda é jornalista com rabo preso. Tenho que fazer justiça aos pequenos diários de bairro e sites independentes onde a neutralidade ainda existe e é perceptível, diante disso surge a questão nas grandes instituições jornalísticas há liberdade de imprensa?

Obs.: Todos os dados mencionados aqui são facilmente encontrados em uma rápida procura em sites busca ou de vídeos, exceto, é claro, o que contei por ter vivido ou ouvido, não mencionei nomes por colocar em risco o emprego de terceiros.

Para Piva

Por Fabiano Fernandes Garcez | 7/04/2010 06:02:00 PM em , , , | comentários (1)


Ah! Menino-demônio
Anjo-velhaco
Pegaste o elevador fantástico
para pousar na brilhante neve infernal

Esporra essa metralhadora giratória de impropérios
em minha boca torta
em meu ouvido invisível
em meus orifícios violados
em meus poros pudicos
para que junto de ti e ao sol roxo de vergonha
eu deixe distanciar minha inocência
em mais um tapete voador

Tese e Antíteses em A Cidade e as Serras

Por Fabiano Fernandes Garcez | 4/26/2010 09:01:00 PM em , | comentários (0)

Publicado em 1901, um ano após a morte de Eça de Queirós, o romance A Cidade e as Serras foi desenvolvido a partir da idéia central do conto Civilização, datado de 1892. Dois personagens centrais, os amigos de infância: Jacinto de Tormes, o protagonista, e José Fernandes, o narrador.
A obra pode ser dividida em duas partes. Após uma rápida passada sobre a história da família do protagonista, retratando, principalmente, os avós e o motivo da saída da família de Portugal para a França, temos a primeira parte que se passa em Paris, na mansão nos Campos Elíseos 202, Zé Fernandes conta a vida de Jacinto, o “Príncipe da Grã-Ventura”, um homem extremamente rico, que, embora tenha nascido em Paris, tem suas rendas dos campos de Portugal, onde a família possui plantações e produção de vinho, cortiça e oliveira.
Positivista, Jacinto, defendia a idéia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. A civilização é cidade grande, é máquina e progresso que é representado na obra pelos diversos aparelhos que estão na mansão, como por exemplo: o telex, o telefone, o teatrofone, o conferenciofone, o marcador de páginas, a pena elétrica e etc.
Em fevereiro de 1880, José Fernandes foi chamado pelo tio e parte para Guiães, Portugal, voltando apenas sete anos depois, porém o entusiasmo e a animação de antes deixam Jacinto, seus aparelhos lhe deixam na mão quando são necessários. Ao perguntar ao seu empregado, Grillo, Zé Fernandes recebe a resposta: “Sua excelência sofre de “fartura”.
Jacinto cansado da vida resolve ir a Tormes, Portugal, para reconstruir a capela e enterrar os ossos de seus avós. Porém no caminho para lá acaba desencontrando-se com os criados e suas bagagens. Chegando lá, segunda parte da obra, apenas com a roupa do corpo, Jacinto e Zé Fernandes verificam que sua casa ainda não está pronta, bem como não chegaram seus pertences enviados meses antes, porém é bem recebido, come bem e chega até reparar o céu e pela primeira vez em muito tempo dorme uma noite inteira.
Zé Fernandes volta para sua propriedade em Guiães, quando o encontra ele está renovado e adorando a vida do simples do campo.
Ao conhecer as reais circunstâncias de pobreza que seus empregados vivem, Jacinto resolve construir casa novas e passa a ser chamado como “o pai dos pobres”.
Jacinto se casa com Joaninha, prima de José Fernandes, e tem dois filhos. Após cinco anos ZéFernandes resolve voltar a Paris e a vê de um modo diferente a pressa, a falsidade, a degeneração do espírito da cidade e das pessoas que nela vivem.
Enfim Zé Fernandes volta a Portugal onde é esperado por Joaninha, Jacinto e os filhos

A tese:

Tédio da civilização (cidade) X Os encantos da natureza (Serras)

Nos campos o vilão sem susto passa
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;

aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;

aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso nutre,
exaspera velador cuidado,

triste, sai do palácio majestoso.
Se hás de ser cortesão mas desgraçado,
antes ser camponês e venturoso.
Bocage




O crítico Jacinto do Prado Coelho, ao admitir que a atitude que ditou A Cidade e as Serras seria aquela que o escritor defendia na sua última fase, e que ela corresponderia: A Cidade e as Serras, para fazer efetivamente uma apologia a um ideal de justiça, não se deveria transformar num panfleto contra a Máquina, porque o mal não estaria na máquina, mas sim na mentalidade e na organização social.

Enganados pela ciência, embrulhados nas subtilezas balofas da economia política, maravilhados como crianças pelas habilidades da mecânica, durante setenta anos construímos freneticamente vapores, caminhos de ferro, máquinas, fábricas, telégrafos, uma imensa ferramentagem, imaginando que por ela realizaríamos a felicidade definitiva dos homens e mal antevendo que aos nossos pés e por motivo mesmo dessa nova civilização utilitária se estava criando uma massa imensa de miséria humana, e que, com cada pedaço de ferro que fundíamos e capitalizávamos, íamos criar mais um pobre!

Eça de Queirós em A Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 23 de Abril de 1895.

1º Antítese :

Guerra da Cal, para quem a obra apresentava a ironização amorosa dos dois pendores contraditórios da alma do escritor.
Um cosmopolita, outro ruralista
Símbolos de duas facetas fundamentais do espírito lusitano: bucolismo e extravagância.
Maria Lúcia Lepecki comenta:
Se José Fernandes não nos inibe de desconfiarmos da conversão de Jacinto, se o próprio narrador não é alheio a tal desconfiança, é porque faz, simultaneamente, duas leituras da sua personagem. Uma delas mostra, em quantidade textual maior, a correspondência regresso físico ao campo - conversão e revisão parcial de valores pessoais e de formas de estar no mundo. A outra leitura, que o narrador escreve por indícios, sugestões, por rápidos comentários irônicos cria correspondência diversa: regresso ao campo - não modificação do protagonista.

(...) Mas, certa manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo arame, para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros:
-Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro... E, depois, estás tu!
Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro dum mês temos a pobre Joana a apertar o vestido pôr meio duma máquina! Pois não! o Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e não avistamos mais sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto tempo ele fora o Príncipe sem Principado. (...)

João Medina, em Eça Político, conclui, após concessões feitas à complexidade deste romance, que a obra, através do seu protagonista Jacinto, representa, por um lado, a reconciliação do próprio Eça com uma pátria que perdera em infindáveis viagens desde 1872 e, por outro, a desilusão perante uma França cada vez mais intolerante.

2º Antítese:

Seguindo o pensamento do crítico Frank Sousa, a Mulher em A Cidade e as Serras aparece julgada de forma dual, ora no seu lado de perversão, ora no seu lado de redenção.
Estabeleceu-se uma nítida oposição entre a doença, o vício, a ruína e a decadência da mulher parisiense:

-Ó Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te telefona, te telegrafa, te...?
-Diana... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!
-Tua?
-Minha, minha... Não! tenho um bocado.
E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão rico e de tão fino orgulho, pôr economia duma gamela própria chafurdasse com outros numa gamela pública – Jacinto levantou os ombros, com um camarão espetado no garfo:
-Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente pôr Civismo, para dotar a Cidade com uma cocotte monumental. De resto não chafurdo. Pobre Diana!... dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de limão.
Arregalei um olho divertido:
-Dos ombros para baixo?... E para cima?
-Ó! para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E três mil francos pôr mês, além das flores... Uma maçada!
E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.


E a saúde, o prazer, a vida e a autenticidade da mulher das serras:

-Como está o tio Adrião?
Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
-E então vossa excelência, bem? A Srª D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
Seguimos pôr ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado todo.
-Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixão deste Josezinho.


Sobre Joaninha Maria Lúcia Lepecki diz:
Quando, pela primeira vez surge diante do senhor de Tormes, ela é já a imagem da maternidade.
Porém, diz Zé Fernandes, sobre as mulheres das Serras:

E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, e o renunciamento às mentiras da Civilização é uma linda história... Mas, caramba, faltam mulheres!
Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
-Com efeito, há aqui falta de mulher, com M grande. Mas essas senhoras aí das casas dos arredores... Não sei, mas estou pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a panela – mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às flores são sempre as mulheres das cortes, das Capitais, às quais, invariavelmente, desde Hesíodo e Horácio, se rendem os poetas... e evidentemente não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte, numa cenoura ou numa couve... Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.
-Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do d. Teotônio, com efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, da Quinta da Loja, também não tentaria nem mesmo o precisado santo Antão. Sobretudo se se despisse, porque é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos nutritivos.
-Tu o disseste: espinafre!
-Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... e depois, um tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala em D. Maria... Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. “V. Exª, Sr. Doutor, não se delicia com Lamartine?” Já me disse esta, a indecente!
-E tu?
-Eu! Arregalei os olhos... “Ó Lamartine!” Mas, coitada, é uma excelente rapariga! Agora, pôr outro lado, temos as Rojões, as filhas do João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicência morre pôr elas. Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma beleza. Ó! uma criatura esplêndida! Mas, enfim, é a mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos deveres da Civilização... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo... Borda na perfeição, faz doces como uma freira do antigo regime... Havia também uma Júlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro de mais. Mas falta a flor da Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga (...)

E o que diz Jacinto:

-Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha! Pulei, imensamente divertido:
-Ó Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?...
O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a moça... Que olhos, dum negro tão líquido e sério! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que graça de Ninfa latina!
E apenas pela porta desaparecera a esplêndida aparição:
-Ó Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra...
O meu Príncipe sorria, com sinceridade:
-Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... são porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso.


Eça de Queirós, em As Rosas, in Notas Contemporâneas, associa as rosas tanto à figura da Virgem Maria como a Vênus. Por isso, tal como bem notou Frank Sousa:
A Joaninha do romance, mais do que a do conto Civilização, assume uma postura simbólica, aparecendo [...], como uma espécie de Virgem Maria por um lado, e como uma figura também sensual, ou seja, uma espécie de Vénus rústica, por outro.

(... ) Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus cabelos – lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis. (...)


A propósito ainda de Joaninha, de quem os estudiosos René Costa e Peggy Sharpe-Valadares salientaram a sua relação com a Virgem Maria, Frank Sousa afirma que, concentrando ela em si os ideais de santa, de mãe e de mulher bela e sã e Jacinto, recebendo o título de Pai dos Pobres e bom senhor.
O casamento de Jacinto e Joaninha é, assim, uma união cristã entre dois seres belos, jovens e virtuosos, além de abastados. Mas o ideal pagão de felicidade no campo (o ideal clássico da aurea mediocritas), as repetidas referências aos autores da Antiguidade grega e latina e aos arquétipos de vida que nele se encontram, parecem indicar que Eça tentou fundir a tradição cristã com a tradição clássica numa coexistência harmoniosa.
Se Joaninha sintetiza o lado positivo e redentor da Mulher em A Cidade e as Serras, o lado da perversão feminina também não está ausente, só que associado à Urbe e aos seus vícios, os quais M.me d'Oriol e Colombe (nesta até é apontado o lesbianismo) bem tipificam.

-Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
-Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra com outra porca!


3º Antítese:

Devemos constatar que a presença clássica em Eça de Queirós é uma evidência, e isto tanto no que diz respeito aos clássicos da Antiguidade greco-latina, quer aos clássicos renascentistas, quer ainda a escritores de outras épocas, mas cujo estilo dimanava dos cânones do Classicismo.
As referências que aparecem em A Cidade e as Serras a autores gregos, como por exemplo, a Heródoto, a Platão, a Plutarco, a Eurípides, a Sófocles, para só citar alguns:
De todos os autores greco-latinos, é com os poetas Virgílio e Homero que A Cidade e as Serras estabelece um dialogismo mais preponderante.
A primeira leitura de Jacinto nas serras é precisamente a do livro I das Bucólicas, tal como o passo em latim, apropriado às circunstâncias de uma manhã de esplendor em Tormes e à personagem Jacinto, bem sugere:

Fortunate Jacinthe! Hic inter arva nota
Et fontes sacros, captabis opacum...


Nestes versos, se substituirmos o lexema Jacinthe por senex e arva por flumina, aparece-nos o texto original da Bucólica I
Cuja tradução em português é: Afortunado velho... entre os rios conhecidos e as sagradas fontes, procurarás a fresca sombra.
Já anteriormente, porém, se alude a Virgílio, num diálogo interessantíssimo entre o protagonista e o narrador Zé Fernandes, onde o vinho de Tormes e a doçura da vida rural são elogiadas:

(...) “É divino!” Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio:
-Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
-Hanc olim veteres vitam coluere Sabini... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rômulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!
E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverência. (...)


O fato de o protagonista de A Cidade e as Serras ler o poeta Virgílio no espaço rural de Tormes pode funcionar, sem dúvida, como um elemento para os que defendem que o romance exalta os valores nacionais, sobretudo na sua vertente de apologia à aurea mediocritas. Na verdade, no gozo dos doces ócios do campo (para usar uma expressão de Horácio, que aliás é referido no romance), era mais do que propício ler Virgílio, o bucolista por excelência da Literatura Latina, e que é citado quase por toda a literatura pastoril.
Maria Lúcia Lepecki entende que a leitura de Virgílio por Jacinto nas serras corrobora o seu estado de alienação. É que ele deforma a funcionalidade do objeto estético, porque para o senhor de Tormes as Bucólicas e as Geórgicas de Virgílio adquirem o valor informativo preponderante que ele deveria encontrar nos jornais de agricultura, onde a técnica para o cultivo do campo lhe seria verdadeiramente fornecida.
Virgílio desempenha nas serras a mesma fonte de autoridade que, na fase pessimista de Paris, desempenhavam as leituras auto-justificativas de Schopenhauer e do Ecclesiates.
É pertinente salientar ainda que Jacinto deixa de ler nas serras o científico e o filosófico, que lia no 202, e passa a ler unicamente o ficcional. Por isso, afirma Maria Lúcia na Ambiguidade que um dos constituintes reacionários da obra se prende com o fato de em Tormes Jacinto não ler um só texto contemporâneo. Nem sequer com a obra científica de Plínio, que encaixotara em Paris para ser lido em Tormes, poderia a personagem manter um diálogo atualizado relativamente ao objeto do conhecimento, que era o campo português do séc. XIX. Então, a volta à Serra é a volta ao passado.
Na obra, há, ainda, alusões ao Gargantua de Rabelais e ao D. Quixote , a que, aliás, o próprio Eça tão bem se referira em 1891 em A Decadência do Riso, Eça de Queirós compara o final do século XIX à Idade Média, na medida em que nestes dois momentos da História o homem se deixou dominar por teorias e por sistemas de pensamento, de tal forma opressivos, que lhe suprimiram o riso - aquilo que é tão próprio do homem. Na Idade Média a causa terá residido no poder absoluto da Igreja, simbolicamente expresso pela leva queirosiana como o morcego teocrático; no século XIX foi devido ao fanatismo com que se defenderam as novas teorias do homem e da ciência. Assim se compreende que Eça termine esta "nota contemporânea" da seguinte maneira:
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado.
Estas palavras induzem a uma crítica vincada da parte do escritor, como pensa Orlando Grossegesse, ao Pessimismo (Schopenhauer) e que estava em moda na época, e que se refletem na caracterização de Jacinto em A Cidade e as Serras.
Depois de Jacinto ter dito a Zé Fernandes que tinha dormido naquele dia deliciosamente como um justo o narrador Zé Fernandes informa ao leitor que o seu ditoso amigo findava o D. Quixote e ele ainda lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro.
A leitura de D. Quixote a que Jacinto procede, depois de ter lido as Bucólicas de Virgílio (e antes de começar a ler a Odisseia de Homero) simboliza a recuperação da sua capacidade de rir, ao contrário da postura séria que tomava em Paris, fruto das suas leituras positivistas e pessimistas:

(...) Em breve, porém, me fez pular, escancarar as pálpebras moles, uma rija, larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto estirado numa cadeira, que lia o D. Quixote... Oh bem-aventurado Príncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom divino de rir com as facécias de Sancho! (...)


4º Atítese:
António Sérgio, que, em vez da oposição Civilização-Natureza, afirma que a verdadeira antítese em que se esteia o livro é a antítese Ociocidade-Ocupação. E a prova disto é que chegado à Serra começou logo o Jacinto a ser ativo - e daí proveio o desvanecer-se o tédio, e daí a redenção da personagem.
Alexandre Pinheiro Torres apresenta uma interpretação muito semelhante à de António Sérgio, porque considera a cidade um lugar desagradável, onde é impossível praticar uma vida de plenitude humana; o campo, em contrapartida, é apresentado como sendo o lugar propício à renovação e à conquista de felicidade.

(... )quando me despertou um berro amigo! Era o meu Príncipe. E muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei a uma planta estiolada, emurchecida na escuridão, entre tapetes e sedas, que, levada para o vento e o sol, profusamente regada, reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacinto já não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a face – mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era Jacinto novíssimo.
E quase me assustava, pôr eu Ter de aprender e penetrar, neste novo Príncipe, os modos e as idéias novas.
-Caramba, Jacinto, mas então...?
Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como desanuviado, desenvencilhado! Almoçara uma pratada de ovos com chouriço, sublime. Passeara pôr toda aquela magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma cama, uns cabides... E ali estava...
(...)
-Ando aí pelas terras desde o romper de alva! Pesquei já hoje quatro trutas magníficas... Lá embaixo, no Naves, um riachote que se atira pelo vale de Seranda... temos logo ao jantar essas trutas!
Mas eu, ávido pela história daquela ressurreição:
-Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...
-Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da Lira, à sombra duma grande árvore, sub tegmine não sei quê, a ler esse adorável Virgílio... e também a arranjar o meu palácio! Que te parece, Zé Fernandes? Em três semanas, tudo soalhado, envidraçado, caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! Até eu pintei, com uma imensa brocha. Viste o comedouro?


Frank Sousa opina que:
Ao optar por personagens de índole tão diferente (citadina e francesa, com Jacinto; serrana e portuguesa, com Zé Fernandes), Eça põe em cena duas vozes, dois pontos de vista ideológicos que constantemente e de modos diversos dialogam entre si. É desta forma que o autor de A Cidade e as Serras problematiza a maneira de viver e as próprias soluções finais, que perante a vida adota (ou encontra) cada uma destas personagens.
Zé Fernandes é um pequeno proprietário, opondo-se assim implicitamente a Jacinto, o aristocrata rural que descende de fato de uma família com raízes remotas na Idade Média portuguesa. José Fernandes é o narrador deste livro, ele está, portanto, de certo modo, em cena durante todo ele. De sua informação nós sabemos assim que vive ou sempre viveu com os tios Vicência e Afonso Fernandes - sintomaticamente morto, aliás, logo no começo do livro.
Ora este Zé Fernandes é como se não tivesse tido pais. Porque nem uma única vez se refere à mãe e uma só vez faz uma referência ocasional a um “daguerreótipo do papá” (cap. VIII). Nada mais. Como se a sua filiação se não determinasse nos pais, mas justamente nos tios...
5º Antítese:

Um personagem típico da atmosfera decadentista é o dândi. Charles Baudelaire diz:
O homem rico, ocioso e que, mesmo entediado de tudo, não tem outra preocupação senão correr ao encalço da felicidade; o homem criado no luxo e acostumado a ser obedecido desde a juventude; aquele, enfim, cuja única profissão é a elegância, sempre exibirá, em todos os tempos, uma fisionomia distinta, completamente à parte. (BAUDELAIRE, 1996. p. 51)
Oriundo da aristocracia, “(...) o dândi não aspira ao dinheiro como a uma coisa essencial; um crédito ilimitado poderia lhe bastar: ele deixaria essa grosseira paixão aos vulgares mortais.” (Idem, ibidem) O dândi é politicamente anti-burguês, não porque quer acabar com a burguesia, mas porque é aristocrático.

(...) - Ó Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve já aí um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São úteis?
Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os sublimava. -Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela simplificação que dão ao trabalho! Assim... e apontou. Este arrancava as penas velhas, o outro numerava rapidamente as ´páginas dum manuscrito; aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
- Mas com efeito, acrescentou, é uma seca... Com as molas, com os bicos, às vezes magoam, ferem... Já me sucedeu inutilizar cartas pôr as Ter sujado com dedadas de sangue. É uma maçada! (...)


O flâneur é ser que observa o mundo que o cerca de maneira real e descritiva, levando a vida para cada lugar que vê. O flâneur descrever as cidades, as ruas, os becos, o externo. Desvincula-se do particular, recrimina o privado, de forma a ver a rua como lar, refúgio e abrigo. Este sentimento flaneuriano reflete a necessidade de segurança do indivíduo, a necessidade de identificação dele para com a sociedade. A rua é seu lar, seu mundo. Ali nada é estranho ou prejudicial. Na rua se sente confortável e protegido. O flâneur do século XIX representou a angústia da Revolução Industrial.
Mesmo que não habitante constante da rua, o indivíduo flâneur utiliza sua janela (caminho livre para o externo) para fazer sua observação e seu retrato. O flâneur é um fotógrafo. Porém além de imagens, ele registra idéias, sentimentos e atitudes. Descreve tudo com perfeição e carinho. Ama o mundo exterior e dele faz seu ideal profissional e emocional.

Arrastei então pôr Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartara havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós-de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. (...) E recolhia enjoado com tanto relento de alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, pôr me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula dum Censor, dum Catão austero. Ó senhores! – pensava – pois eu não me divertirei nesta deliciosa cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?



Referências bibliográficas:

QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras, Lisboa, Livros do Brasil, s/d.
COELHO, Jacinto do Prado - "A tese de 'A Cidade e as Serras'" in A letra e o leitor, 2ª ed., Lisboa Moraes Editores, 1977, pp. 169-174.
LEPECKI, Maria Lúcia - " O sentido de A Cidade e as Serras" in Eça na ambiguidade, Fundão, "Jornal do Fundão" Editora, 1974, pp.
SOUSA, Frank S. - "Da errância como atitude estética em Eça de Queiroz: do conto A Perfeição aA Cidade e as Serras ", Revista da Faculdade de Letras, 5ª série, 19/20, Lisboa, 1995-1996, pp. 75-88.
SOUSA, Frank S. - O segredo de Eça. Ideologia e ambiguidade em "A Cidade e as Serras", Lisboa, Cosmos, 1996
GUERRA DA CAL, Ernesto, Língua e Estilo de Eça de Queiroz, Coimbra, Almedina, 1981.
MEDINA, João, Eça Político, Lisboa, Seara Nova, 1974.
GROSSEGESSE, Orlando, «Sobre a 'recarnavalização' em A Cidade e as Serras
______. “A postura (anti-)dândi e a noção de decadência no conto Civilização, de Eça de Queirós
Michele Dull Sampaio Beraldo Matter. In: O MARRARE – Revista da Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da UERJ. Rio
de Janeiro: 2007a. n. 8. p. 8-19.
BAUDELAIRE, Charles. O dândi. In: Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. pp. 51-56.

QUEIRÓS, Eça de. A decadência do riso. In: Notas contemporâneas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, s/d.
______. Civilização. Contos. São Paulo: Martim Claret, 2004.


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