Um olhar atento para Capitu

Por Fabiano Fernandes Garcez | 4/26/2010 08:59:00 PM em , | comentários (0)

Dom Casmurro não é um livro, mas muitos, nos leva a inúmeras e diferentes leituras.

O livro é um julgamento, a ré, Capitu, Bentinho, o promotor.
Augusto Meyer


É uma história banal

Bentinho, filho de um já falecido fazendeiro e deputado, se vê na possibilidade de ter de cumprir a promessa que sua mãe, D. Glória, fizera quando de seu nascimento: Torná-lo padre.
O menino percebe que isso o separaria de sua “primeira amiga” a menina Capitu, filha de um funcionário público, o Pádua, seu vizinho. Após longa sucessão de artimanhas para libertá-lo da promessa, Bentinho e Capitu casam-se, mas não permanecem unidos por muito tempo.
O ciúme leva-os a separação. O casal finge uma viagem à Europa e lá ficam Capitu e seu filho Ezequiel, porém este regressa já moço, para uma breve visita ao pai, já velho, que o recebe friamente. Pouco tempo depois, o rapaz parte para o estrangeiro para os estudos e lá acaba morrendo.

A estruturação da obra:

O romance pode ser dividido em duas partes

1º Parte (Capítulo 3 ao 97)

O texto segue o padrão romântico de superação dos obstáculos da união conjugal.
Sem ordem temporal rígida e com interrupções digressivas, começa com o problema central: A promessa da mãe em fazê-lo padre.

2º parte (Capítulo 98 ao 146)

O casamento, o nascimento do filho e as suspeitas sobre a infidelidade de Capitu e a morte de Escobar.
É a desmontagem da primeira parte, nas medidas em que psicologicamente pessimista que aos poucos toma por inteiro o narrador, obscurece completamente a inocência da juventude.

Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase ao fim do papel, com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pousa emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegaremos ao fim.
Cap. XCVII



O romance assume um caráter metalingüístico, após sua conclusão, então toda a primeira parte torna-se outra. Percebe-se que a construção intencional de Capitu é uma armadilha. Algumas características dela apresentadas nesta primeira parte sustentam a tese seria capaz de trair.

A narração

Não é a história contada que faz de D. Casmurro um grande livro da literatura mundial. O modo de contar é o mais importante.
O narrador em primeira pessoa conta a sua versão da história, atribuindo valores e significados a tudo e a todos e o leitor deve perceber isso se quer compreender o texto.


Um mundo que se mostra por dentro e se esconde por fora.
Carlos Franco


Em Machado o fato em si não tem a importância menor. O que interessa é a reflexão que esse fato provoca.

Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto.
Machado de Assis


A percepção do real dá importância significativa ao foco narrativo, assumindo o que se conta à condição psicológica de quem conta

Características marcantes da narração:

 Conversa com o leitor, bem humorada, geralmente;

 O narrador se expõe, para deixar bem claro que o fato narrado é ficção, não se esconde para dar a impressão de que narra um fato real;

 Ironia;

 Estudo da Alma feminina.


Em Machado o homem aparece como um ser corrompido e sem saída diante das forças de seu destino. Compara a vida a um espetáculo tedioso.

O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovoada, um carro, um tiro.
Cap. LXXIII



O indivíduo se defronta com o que socialmente se espera dele.

Bento Santiago é atrelado às convicções machistas e preconceituosas, um típico homem de seu tempo.


Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e de outro.
Cap. XII


Digressão Machadiana

Técnica utilizada que interrompe o fluxo narrativo e desloca o assunto de que se trata para atenuar, pelo humor implícito, a importância e a gravidade da narração, mas também lembra-nos de que tudo o que se narra é fruto das recordações e está sujeito ao fluxo de consciente do narrador.

A técnica Machadiana consiste em:
Sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida. Em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos fatos e sua anormalidade essencial. Em sugerir, sob a aparência do contrário, que o ato excepcional é normal, e anormal seria o ato corriqueiro.
Antonio Candido



Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindos. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.
Cap. II



O narrador central é modificado pelo tempo

Percebemos a modificação do personagem através de nome:

Bentinho, Bento Santiago e Dom Casmurro

O nome do personagem retrate como ele é visto, é sua caracterização psicológica e social.

Como o narrador é um personagem toda a narrativa está condicionada a sua visão dos fatos. Dom Casmurro volta seu olhar para Bentinho e Bento Santiago.

Os olhos com que me disse isto eram embuçados, como espreitando um gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro, mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um homem novo, um que aparecia agora, desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto.
Cap. CXL


O livro inicia-se pelos capítulos Do título e Do livro que situam o leitor sobre o ponto de vista que estará em toda a narrativa.

Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência. Filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma "História dos Subúrbios" menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contassem alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem
perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...
Cap. II


O romance é parte de alguém que a certa altura da vida, limitou se ao direcionar toda sua energia vital em seu mundo interno.
O fato de reproduzir na velhice a casa de sua infância serve para caracterizar o personagem narrador.

(..) se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.
Cap. II



Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convidando à construção ou reconstrução de mim mesmo. Por exemplo, agora que contei um pecado, diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica transferida a melhor oportunidade.
Cap. LXVIII



Caracterizando Capitu


Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor, não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.
Cap. XIII


Capitu se mostra uma mulher fora de seu tempo, é uma mulher moderna em pleno século 19.


Esta imagem é porventura melhor que a outra, mas a ótima delas é nenhuma.
Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição.
Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. Eram de vária espécie, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo. No colégio onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, francês, doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por exemplo, a fazer renda- por isso mesmo, quis que prima Justina lhe ensinasse. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre, depois de lhe propor gracejando, acabou dizendo que latim não era língua de meninas.
Cap. XXXI


Na 1º parte a linha narrativa pinta Capitu como uma jovem racional, ativa e calculista que facilmente sai de situações complicadas e é obstinada. Ela tem apenas 14 anos, mas já tem larga experiência. Tinha o trabalho de pensar por Bentinho, ele a obedecia e era manipulado de forma pacífica.

Todas as minhas invejas foram com ela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?
Cap. LXXXIII


— E você, Capitu, interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala, com ela, — Você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre?
— Acho que sim, senhora, respondeu Capitu cheia de convicção.
Não gostei da convicção. Assim lhe disse, na manhã seguinte, no quintal dela, recordando as palavras da véspera, e lançando-lhe em rosto, pela primeira vez, a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no seminário, quando eu vivia curtido de saudades. Capitu fez-se muito séria, e perguntou-me como é que queria que se portasse, uma vez que suspeitavam de nós; também tivera noites desconsoladas, e os dias, em casa dela, foram tão tristes como os meus; podia indagá-lo do pai e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que não pensasse mais em mim.
Cap. LXV

O narrador faz um retrato psicológico de si mesmo: vacilante, emotivo, passivo, imaginativo e fraco.

As suspeitas

A tendência imaginativa é fundamental para a possibilidade de engano do narrador.

A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo
Cap. XL


As suspeitas começam a surgir por causa, novamente, de José Dias, porém lá Bentinho não alimenta esse ciúme.

—Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade.
Cap. LXII


Bentinho sente-se atraído por Sancha e vê a possibilidade de Capitu sentir o mesmo por Escobar .



Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra cousa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.
Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhum passavam. Tal se dá na rua entre dous teimosos. A cautela desligou-nos eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconhecida que passa; mas então dar-se-ia que ela adivinhando... Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora, e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invencível... Invencível; esta palavra foi como uma bênção de padre à missa, que a gente recebe e repete em si mesma.
Cap. CXVIII


Olhos de Ressaca

Toda a caracterização de Capitu parece fazer parte de um projeto narrativo proposital e interligado.

Reforça-se pela construção de Capitu por José Dias —“olhos de cigana oblíqua e dissimulada” —, que será reafirmado mais tarde pelo próprio Bento fazendo referências do caráter enigmático e sedutor dos olhos de Capitu: olhos de ressaca.


Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Cap. XXXII


De repente, cessando a reflexão, fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.
— Medo?
— Sim, pergunto se você tem medo.
— Medo de quê?
— Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, de andar, de trabalhar...
Cap. XLIII



Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da
Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: "Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti". Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
Cap. CXLVIII


O ciúme doentinho

O romance centra-se em perceber os processos de construção da suspeita de Bento.

Onde há fumaça há fogo

(...) o fato é que, dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a conseqüência é exatamente a mesma nos dois casos.
Antonio Candido



Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma cousa. Também achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao gênio, era um, pareciam irmãs.
— Finalmente, até a amizade que ela tem a Sanchinha — a mãe não era mais amiga dela... Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.
Cap. LXXXIII


Capitu estava melhor e até boa. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada, mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. Não falava alegre, o que me fez desconfiar que mentia, para me não meter medo, mas jurou que era a verdade pura. Escobar sorriu e disse:
—A cunhadinha está tão doente como você ou eu. Vamos aos embargos.
Cap. CXIII


Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas, e não a frieza quando íamos nós a Mata-cavalos; mas não estendi tão longe a intimidade do agregado. José Dias pediu para ver o nosso "profetazinho" (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. Desta vez falou ao
modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel, como soube depois) e perguntava-lhe:
"Como vai isso, filho do homem?" "Dize-me, filho do homem, onde estão os teus brinquedos?"
"Queres comer doce, filho do homem?"
— Que filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada.
— São os modos de dizer da Bíblia.
— Pois eu não gosto deles, replicou ela com aspereza.
— Tem razão, Capitu, concordou o agregado. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. Eu falava assim para variar... Tu como vais, meu anjo? Meu anjo, como é que eu ando na rua?
Cap. CXVI


— Mas tem muita graça; a mim, quando ele copia os meus gestos, parece-me que sou eu mesmo, pequenino. Outro dia chegou a fazer um gesto de D. Glória, tão bem que ela lhe deu um beijo em paga. Vamos, como é que eu ando?
— Não, Ezequiel, disse eu, mamãe não quer.
Eu mesmo achava feio tal sestro. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como os das mãos e pés de Escobar, ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria. Capitu ralhava. Mas o menino era travesso, como o diabo; apenas começamos a falar de outra cousa, saltou ao meio da sala, dizendo a José Dias:
— O senhor anda assim.
Não podemos deixar de rir, eu mais que ninguém. A primeira pessoa que fechou a cara, que o repreendeu e chamou a si foi Capitu.
— Não quero isso, ouviu?
Cap. CXVI


Otelo
O narrador afirma que nunca leu nem viu Otelo, porém a peça de Shakespeare foi assunto do cap. LXXII – Uma ponta de Iago.
Um lenço foi suficiente para que Otelo tenha certeza do crime de Desdemona, um olhar foi que trouxe a Bento a certeza. Porém mesmo sabendo que Desdemona é inocente Bento não sente pena por ela.
E não podemos esquecer que:

A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento, se não foi nele, foi noutro autor antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre; mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. Digamos o caso simplesmente. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica.
Cap. XL


Referências bibliográficas:
CANDIDO, Antonio. O Discurso e a Cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.
CARVALHO, Luiz Fernando (org). Capitu: minissérie de Luiz Fernando Carvalho a partir da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008.
COSTA LIMA, Luiz. Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria (1899). Dom Casmurro. Fixação de texto e notas de Manoel Mourivaldo Santiago Almeida; prefácio de John Gledson. São Paulo: Globo, 2008.
____ (1899). Dom Casmurro. Biografia de M. Cavalcanti Proença; estudo introdutório e notas de Afrânio Coutinho; introdução de Ivan Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, sd.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Scipione,1994.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 12. ed. São Paulo: Ática, 1981.
ASSIS, Machado. Dom Casmurro. Klick Editora para o jornal O Estado de São Paulo, 1997.

SONETO AO MEU AMOR

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/17/2010 11:28:00 AM em , , , | comentários (0)

.

Se amor é um fogo ou é uma ferida

Ou apenas um querer bruto e fero
Ou então uma prisão de mãos regidas
Amo-te total bicho mistério

Amor meu fecha a porta escura
Amamo-nos tranqüilos ao rio
Tu, branco cisne como candura
Estendo-te a mão laço de fio

Prende-me o amor, não é dos tolos 
Nem dos sábios; é apenas o teu
Camões, Bocage, Garret e Pessoa

Neruda e Castro Alves, Vinicius  
Tomei versos, palavras à toa 
Cantar, cantei a ti: Meu amor e vício

Diálogos que ainda restam,  p.39

O VIOLÃO

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/16/2010 08:39:00 PM em , , , | comentários (0)

.

Pego o violão
tiro a capa
tiro a poeira

O violão branco
de madeira

Passo a mão em sua cintura
(tem corpo de mulher)
Poso para foto
Por posar

Pois não toco
nunca toquei

Ele sempre me tocou
com seu som
nas tardes de cantoria
nas noites de serenatas que eu assistia
nas manhãs que ele me acordava e eu não queria

Penso em fazer soar suas cordas,
um acorde qualquer,
não faço

Pois não toco
Nunca toquei

O violão já trouxe melodia
alegria e até poesia
Hoje não toca mais 


Diálogos que ainda restam  p.23

EU NÃO SOU EU

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/11/2010 06:38:00 PM em , , , | comentários (1)

.
  
Eu não sou eu, sou outro
E outro que não o outro, que não eu
Eu sou outro e outro e
                         outros tantos e eu

Se sou eu que é outro
                        o eu que sou também não sou eu
Com tantos eu, outro e outros eus,
            como posso olhar algo e dizer: isso é meu?

Como pode ser meu,
se o eu que sou não sou eu?
Quando eu digo meu,
o eu pode estar se referindo ao meu que é do outro
o outro que não sou eu,
então, esse algo é seu!

Mas se sou eu e outro
                        o outro também sou eu
Aquilo que é seu é meu!

Eu Fabiano, Fernando, Carlos
            que diferença faz, se todos os outros sou eu

Eu sou o outro e os outros
            sem deixar de ser eu
      sou eu e sou outro
            e os outros sou eu

Mas os outros que não o outro,
que não os outros outros
que não eu, também sou eu?

Diálogos que ainda restam p. 43 

AS CHAVES

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/10/2010 03:04:00 PM em , , , | comentários (0)

.

Tiro do bolso as chaves
para abrir a porta
que não há mais

Volto-me para o corredor
de onde saí
tento refazer meus passos
a procura da saída

Não vejo os quartos
onde nos encontramos,
nos amamos
as fotos que tiramos,
nossos sorrisos

Não vejo os objetos, os quadros, os vasos
que enfeitavam a sala de estar
já não vejo nem mesmo o corredor
onde deveria estar

As chaves ...
Passo as mãos no bolso...
Não as tenho mais...

Procuro a porta
Procuro a saída
Procuro um luz no fim do túnel,
mas não encontro o interruptor,
nem uma vela

O ar ficou pesado,
sinto todo peso em meus ombros
O ar ficou pesado
Um peso do passado

Finalmente, encontro uma porta,
que deve ser minha saída
que deve fechar minha ferida
Mas ....
Não encontro as chaves


Diálogos que ainda restam p. 21

Um acontecimento de vivências

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/10/2010 02:51:00 PM em , | comentários (1)



por Fabiano Fernandes Garcez

           
            Nas páginas de seu primeiro livro Acontecências, Jurandir Rodrigues nos apresenta flagrantes líricos de acontecimentos e vivências, a voz peculiar do poeta conduz Noite a fora para compartilhar sua realidade consciente, transformada por meio de uma linguagem acessível, porém imaginativa.

            O leitor compartilha sua melancolia, como em Blue, suas tormentas de Abandono, suas vitórias em Meu tempo, seu desejo de Ardência e sua saudade em Cada pedacinho.

            Jurandir aproveita as páginas para render homenagens aos seus ídolos como Drummond “Se o vinho e a saudade da lua não deixassem a gente/ comovido como o diabo”, também em “ela surge vagarosamente/ de tempos em tempos/ eu espero/ ela brotaria no asfalto”, Pessoa “Gosto de pessoas /Pessoa/ Caeiro/ Álvaro/ Soares/ Reis”, ou “Nasceu homem, morreu menino/Cavaleiro do íntimo apocalipse, Fernando Sabino”, mas é em Mito e Antologia poética que Rodrigues escancara suas preferências literárias, neste último ele chega a incluir até seus letristas preferidos.

            A música é terreno conhecido do poeta como se percebe em Testamento “Meus livros, meus discos”, Para mim “Tudo é Nelson Cavaquinho”, além das referências e alusões a letras musicais, os versos do poeta se mostram melódicos e rítmicos “Hoje me refaço, me desfaço, me traço./ Se quisesse colar, desamassar, ensacar; teria perdido tempo./ Hoje já me olho, recolho, embrulho e me entrego quase/ inteiro. /Se quisesse te amar, teria que esperar./ Amor tem forma, fome, sede.” Se quisesse.

            Além das referências e, principalmente, homenagens a quem foi caro à formação lírica e musical do poeta, Acontecência apresenta homenagens às pessoas que foram importantes para a sua formação humana, o pai ganha de presente três poemas Raízes, Meu pai e Queda.

            Jurandir Rodrigues começa bem sua caminhada poética, subjetividade, personalidade, sensibilidade, como também harmonia entre a força das palavras e das idéias fazem de Acontecências um acontecimento.






Um trago sozinho à tarde

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/10/2010 02:49:00 PM em , | comentários (1)



Por Fabiano Fernandes Garcez

                   Ernest Fischer, em A necessidade da arte, afirma:

                         Em todo poeta existe certa nostalgia de uma linguagem “mágica”, original.


                   Em O Bebedor de Auroras, mais novo trabalho do premiadíssimo poeta Tonho França nos brinda com magia, lírica íntima e sintaxe peculiar para resgatar do mundo contemporâneo, a cada dia repleto de surpresas, armadilhas e contradições, a humanidade perdida.
             A experiência individual do eu-poético, traz ao livro um tom de saudade e de desencanto, talvez contaminado pelo sentimento de desencaixe, como se pode notar em: 

            aprendi a ver através das margaridas, mas não entendo mais o
                                                                       [olhar dos homens
                                                  (...)
                                                                                  (Tardes Artificiais)
ou:
                                               A toda hora
                                             A todo momento
                                        Estou fora ou dentro?
                                                                                  (Muros)
             A pena de Tonho corre sobre o fazer poético, em inúmeros poemas se encontram as palavras: versos, poesia e poeta, isto em consequência a reclusão no presente de eu-poético fragilizado pelas incertezas do futuro e as recordações do passado:

            Meus olhos, embora cansados,
            Pressentem o que não podem ver
            Aprenderam com o meu silêncio
            – rituais e rotinas de solidão –
            Meus instintos guardam a memória dos amores
            E de tudo o que me é caro e que meu coração...
            Já não suportaria.

            E de nada me adiantam, agora, lembranças,
            Penitências, alegrias ou arrependimentos
            ­Estou recluso nos versos –
            E nas minhas dores, culpas
            Nos enfrentamentos em calmos e intermináveis silêncios
            Abertos, vulneráveis, extremamente íntimos
            E despidos de profecias, santos e defesas,

            Num encontro definitivo, conclusivo, coeso

            Do qual nem poeta, nem poesia, saem ilesos.
(Autorretrato (Diálogo do último dia))
                   O sotaque poético de Tonho França permanece intacto, maneira singular de construção semântica,  que aproveita fragmentos de versos anteriores para dar aos posteriores outras significações:

            As ladeiras de pedra
            Os homens a seguir o destino em procissão
            As ladeiras de pedra e os homens a segui
            As ladeiras de pedra tentam a remissão:
            Os homens de pedra a seguir vão,
            homens de pedra a seguir
            os homens, em vão.
                                               (...)
                                                                                  (Procissão)
               Na construção sintática, menos recorrente nesta obra é verdade, Tonho França também é mestre, trabalha duas orações coordenadas, porém com o segundo elemento do paralelismo inusitado:

            Meus olhos guardam o segredo da morte
            Suas mãos enrijecidas em pétalas de mármore-rosa
            Colhiam maças e notas musicais.
                                                                                  (Canto III)
                  Mares... destoa do resto do livro, o uso constante da mesma rima dá ao poema um ritmo arcaico, lembrando muito a poesia do século XIII e XIX:

            Os barcos deixam o cais,
            Aventuram-se e deixam o cais,
            Nas ondas inseguras, deixam o cais,
            Levando as desventuras, deixam o cais,
            Nas noites tão escuras, deixam o cais,
            Deslizam entre espumas e corais,
                                               (...)
                   Ainda na linguagem que o poeta utiliza para suas auroras o destaque fica por conta de:


Metrópole

Pivete no semáforo
(vida?)
Vende balas
(perdidas)

                  o uso dos parênteses dá ao poema outras possibilidades de interpretação, pode-se ler só os termos que estão fora deles, apenas os que estão dentro, ou ainda embaralhando-os.
                 Em Vida vista pela janela (cenas de um tempo sem sentido), um dos melhores poemas do livro, Tonho nos ensina:

            É preciso nos lavar de nós mesmos  (..)

                   Em uma sociedade que é regida pelo olhar mercadológico, o olhar sensorial do eu-poético recai sobre os homens desumanizados, então resta, apenas, concordar com as palavras do poeta:

            Já aprendi a sobreviver nas esquinas definitivas
            E sinto como é pesada a franqueza
            Escrevo abaixo da “linha da pobreza”
            Dentro dos olhos e com muita dor
            Mas não me iludo, não me engano
            Meus versos são pelos seres humanos
            A poesia é para sermos humanos
                                               (...)
                                                                       (Dia a dia)

             A voz auscultada das páginas traz a entonação do entardecer, apesar do título constar como auroras, a palavra tarde é recorrente em muitos de seus versos, assim como ecos de um homem, em uma metrópole, solitário à espera de alguém para, quem sabe, um trago de poesia.
                O Bebedor de Auroras é um bálsamo contra a banalização do mundo contemporâneo que está cada vez mais e mais dezumano e alienante. 


Um tempo que escorre aos olhos

Por Fabiano Fernandes Garcez | 2/10/2010 02:44:00 PM em , | comentários (0)


Por Fabiano Fernandes Garcez

Em À medida dos Tempos, livro de estréia de Clebber Bianchi, percebe-se que no decorrer da obra o poeta amadurece seu canto, amplia suas impressões e expressões, suas visões e percepções de um tempo impossível de se aprisionar, mesmo depois de capturado pelo retrato fotográfico, restando ao olhar lírico apenas a nostalgia de um tempo tardio, mesmo que recente:
Do peito,
escorre a chama suja dos tempos.
O olhar é simples, singelo,
apenas os tempos são capazes de testemunhá-lo.
O sorriso amarelou no retrato
e a fala muda enalteceu a lembrança.
Somente o sonho sobreviveu.
E a saudade vive nas tardes,
sob as folhas das mangueiras,
a cada lágrima que cai.

Clebber nos dá mosta do labor poético que preza a fenomenologia do olhar, olhar este que se volta para as coisas sem importância, coisas à toa e, por isso mesmo, são de grande valia e merecem ser recordadas:
Haverá um tempo
em que o passado estará exposto
no reflexo das cores orvalhadas
das flores do jardim da janela dos fundos.
As goteiras farão as rimas dos versos
que contarão a história.
O silêncio que havia na casa grande
havia entre os odores do curral.
O galo que há pouco cantou
propiciou reminiscências,
que os roncos dos motores e buzinas,
além do apitar cotidiano da fábrica, apagaram.

RETRATOS

A observação subjetiva das coisas simples, singelas, ganha um forte aliado, sua sintaxe também simples, sem afetações linguísticas de um discurso meramente formalista, que pouco comunica. O discurso poético de Clebber comunica bastante, para isso o campo léxico de À medida dos tempos é cotidiano, comum, no entanto é nessa simplicidade de dizer que é dito muito sobre a solidão, os sonhos infantis e até sobre o fato de se perder as palavras, restando apenas a contemplação sensorial do momento:
Daqui de cima tudo é solitário.
Viver acima
é encontrar-se surdamente
falando para si mesmo.
Esta é a minha casa da árvore (sonho de criança)
financiada em duzentos e quarenta meses, além de alienada.

Quando enlouqueço e grito lá para baixo,
somente as buzinas respondem.
Em seguida, as palavras não me vêm.
Apenas o pio da andorinha,
um pio, um só.
Apenas uma andorinha,
uma andorinha apenas.
UMA ANDORINHA

Cleber vale-se de alguns recursos poéticos, apesar de sua linguagem acessível, como por exemplo, paradoxos e antíteses:
O tempo é permissivo
aos contentamentos descontentes.
Vejo que tudo acontece ao mesmo tempo agora
no cenário dos dias na cidade...
PESARES DO TEMPO

Hoje, o tempo me veio solteiro,
em uma noite daquelas em que a melhor companhia era a
solidão.
EU INTRA
além disso, em alguns poemas vê-se um jogo com os diferentes valores semânticos de uma mesma palavra, como em MÁSCARA:
Um ser sem sentir-se
um sentir-se sem ser.
porém é nas belíssimas imagens poéticas que Clebber Bianchi se mostra mais criativo:
Enquanto os sapos coaxam de sede,
O sol atravessa a pele da terra,
e meus ombros são minha camada de ozônio.
DESALINHO

Cansei de respirar uma felicidade esbaforida,
cansada de se engasgar no soluço sórdido,
numa exatidão sem nexo e triste de alma.
(...)
Bastou-me um santo
e ajoelhei-me sobre as cinzas carbonizadas do meu consciente.
DILATEM, PUPILAS!

O poeta também se utiliza de alguns recursos sonoros que fazem com que os seus poemas ganhem em musicalidade e ecoem em nossos ouvidos. Um desses recursos, é o eco fonético, ou seja, aproximação de palavras semelhantes sonoramente:
Eu era um descaso do acaso,
angariado na contramão de uma grande avenida
Os brilhos dos olhos lagrimantes de saudade
de um tempo escorrido nos relógios
refletiam a esperança do passado,
apagada na realidade de um presente sério.
TEMPO DE REZA

Outro recurso utilizado pelo poeta é a onomatopéia:
O relógio tinha que tá, tinha que tá
mas não tá.
(esta foi a única coisa que o tempo parou!)
MANTO NEGRO

Clebber mostra em seus versos, não raro, a influência de Tonho França, e faz uma homenagem à altura do poeta de Guaratinguetá em CHARUTO CUBANO:
Uma lágrima seca escorreu-me de canto
e o canto do pintassilgo emudeceu na gaiola.
Minha cachaça perdeu o gosto quente,
exposta ao sol dos dias.
Mesmo uma pimenta aberta no prato
caçoava minha coragem.
Senti desconforto
e, sob meus pés,
o vácuo das manhãs sem sal provocava saudades.
É contínua a direção dos ventos,
segundo os sonhos,
seguindo sempre somente e só...

Os apoios que me sustentam
são espinhos tristes, sanções expressionistas,
cenários de Van Gogh.
Meu peito dilatado
ressalva as atitudes corriqueiras nas janelas
temperadas de línguas.

E sobre a rede ...
... e sobre a rede,
somente um legítimo charuto cubano
fazia-me companhia,
e entre um trago e outro
trago saudades.
Ao fundo,
solos de blues...
Solos de blues,
à tarde.

As acácias choravam suas perdas,
e as folhas caíam como eu,
solitariamente...

Outro destaque do livro é OLHOS FECHADOS, poema com uma vertente ecológica e, dado aos problemas ambientais, quem sabe, profético:
A culpa é nossa!
Uma culpa com a imensidão do verso,
do céu-fumaça, estradas-pet, sertão-papel. Culpa tamanha!
O sonho é esperança contida no escorrer das águas nas sarje¬tas,
nas mãos atadas dos pobres de espírito,
no papel de bala que perfurou o vento
e não pesou sobre a mente poluída.

É o início do fim. (...)

Le Goff em História e Memória diz:
“a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia”.
Com base nessa afirmação, só resta encerrar a resenha com os belíssimos versos de SEXO DOS TEMPOS, sem antes render as devidas congratulações ao poeta que surge à tempo:

Sou atemporal.
Minhas memórias não morrerão minhas

Cada um tem o ídolo que merece

Por Fabiano Fernandes Garcez | 10/14/2009 03:04:00 PM em , , | comentários (0)

Lembro-me sempre dos versos de Cazuza: Meus heróis morreram de overdose... Os meus nem todos morreram assim, uns sim, outros morreram de mortes naturais, outros foram assassinados e outros de causas diversas, porém muitos ainda vivem.
Um dos que já faleceram, me marcou muito, com sua música, com seus versos e, principalmente, por perguntar a todos que conhecia que livros ele estava lendo, não sei o porquê, mas isso influenciou muito minha juventude, pois se a leitura é importante para o Renato Russo ao ponto de ser a primeira informação a querer saber de alguém, deveria ser importante para mim e eu que sempre li muito, passei a ler mais ainda.
Isso é passado, Renato Russo e Cazuza foram ídolos do passado, hoje os tempos mudaram, Talvez a primeira coisa a se saber de alguém é onde ele malha, onde faz lipo, onde se brônzea e por aí vai. Os novos ídolos são mais preocupados com a beleza estética do que a beleza intelectual.
Um fato acontecido nos faz pensar, os que ainda pensam, em um dos seus programas de televisão, vi pelo CQC em seu TOP 5, Silvio Santos perguntava a Carla Perez uma palavra a respeito do Alasca e ela disse: praia. Isso gerou até uma brincadeirinha do dono do baú, mas ela não parou por aí, depois associou Baco a barco e grande canal ao rio Tietê, só lembrando que a moça é a mesma que em outro programa pergunta a uma telespectadora se a letra era I de escola, depois ela ainda fala se era E de isqueiro.
Ela continua ser uma moça de glúteos grandes e bonitos, será que só isso é suficiente para ser um ídolo brasileiro? Cada um, ou cada povo tem o ídolo que merece!

2016: A olimpíada do Lula!

Por Fabiano Fernandes Garcez | 10/07/2009 02:19:00 PM em , , | comentários (0)

Quer queiram os críticos ou não, o Rio venceu Madri, Tóquio e Chicago na disputa pela Olimpíada de 2016. A quem devemos creditar essa vitória? A Lula, claro.
Apesar de ser muito criticado pela imprensa tupiniquim e também, pelo Zé Povinho, que muitas vezes repete que ouve na televisão sem saber o que está falando, Lula é um líder respeitadíssimo fora do Brasil e transmite muita confiança para outros líderes e, principalmente, para instituições internacionais, não é por acaso que Obama se referiu a ele como: O cara! Não tenho como garantir, mas se fosse outro presidente, o Brasil não sediaria nem a Copa de 2014, mesmo sendo o país do futebol.
Alguns críticos estão dizendo que com os problemas que o Brasil tem, não deveria gastar milhões com os jogos olímpicos, porém se até agora nunca houve uma olimpíada, por que ainda temos esses problemas? A real questão é que esses críticos elitistas preconceituosos, não conseguem suportar a ideia de que um brasileiro, nordestino, sem um dedo, que escorrega na concordância verbal e agora deu para enfiar “ou seja” em toda frase , conseguiu fazer justiça social no mundo! Coisa que nenhum sociólogo afrancesado da USP fez! É a primeira olimpíada na América do Sul!
Não votei no Lula e encontro inúmeros defeitos em seu governo, mas é inegável que é um grande estadista. E para utilizar metáforas lulantes, o Rio de Janeiro deve fazer como aquelas mulheres que são lindas por natureza, mas estavam um pouco desleixadas, sem auto-estima e apanhando dos maridos fazem quando são convidadas para ir a um casamento. Vão a um salão de beleza, passam o dia todo lá e chegam ao Buffet deslumbrantes, depois vão pagando as parcelas do cartão de crédito ou os cheques pré, se der!

Vamos colocar os políticos no paredão?

Por Fabiano Fernandes Garcez | 9/30/2009 02:56:00 PM em , , | comentários (0)

No mês passado escrevi uma crônica sobre os Realities Shows e ao final sugeri que se utilizasse com os nossos políticos, o mesmo processo de eliminação dos concorrentes, motivado pelas denúncias contra nosso El Bigodon, José Sarney. Não é que isso pode ser verdade?
Tramita na Câmara, já aprovada pelo Senado, o Recall Eleitoral, que é submeter os mandatos políticos de parlamentares ou chefes do poder executivo a um referendo para o eleitorado decidir se os mantêm ou não. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), com o apoio da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) faz campanha em seu site para a aprovação da Proposta de Emenda Constituicional 73/2005, percebe-se pela data, que minha crônica foi posterior a sua criação.
Funcionaria desta forma: O referendo pode ser convocado com um pedido de 2% do eleitorado nacional, após, pelo menos, um ano do mandato, com isso a população poderia revogar e substituir os mandatos de vereadores, deputados e senadores, bem como de prefeito, governador e presidente da República. Assim a população não precisaria esperar até a próxima eleição para retirar do poder os corruptos e toda a corja de péssimos políticos que temos.
O Recall pode ser uma grande novidade por aqui, mas é muito antigo, o primeiro aconteceu em 1903 em Los Angeles, EUA. Os contrários a essa medida argumentam que não é justo com os mandatários, por não dar tempo suficiente, e de direito adquirido, para o exercício das funções e a chance de recuperação e reparação de alguns deslizes como inoperância ou incompetência.
Resta saber se um telespectador de reality show, que não sabe escolher um candidato e, pior ainda, nem se lembra dos parlamentares em quem votou, estará preparado para a eliminação.

A unanimidade comercial

Por Fabiano Fernandes Garcez | 9/23/2009 08:43:00 PM em , , | comentários (0)

Existem algumas normas, que não estão escritas em lugar algum. Fui a uma pizzaria nesse fim de semana e a televisão estava ligada na rede globo, (escrevo assim mesmo no minúsculo!) ninguém a assistia, estava para as paredes, porém na rede globo. Por quê? Porque existe a regra que “todos” assistem a essa emissora, mesmo quem a detesta, como eu.
Você já ouviu alguém falando que se não for coca-cola não é refrigerante? Garanto que sim. Baseado nesta “norma” a coca-cola fez uma série de anúncios contra os refrigerantes mais baratos de pequenas empresas, por ela, chamado de refrigereco.
Esses dois exemplos são apenas ilustrativos, não vou ficar fazendo propaganda para essas nem outras empresas, pois o espaço desta crônica não é para isso, o leitor mais atento perceberá que de propaganda aqui não tem nada, mas há um ditado que diz: Fale mal, mas fale de mim. Para isso é utilizado o axioma: Se todos falam de um determinado produto, logo ele se torna conhecido e se tornando conhecido, é bom. Com isso cria-se o padrão, e tudo que não foge: Não é bom, claro!
De onde tiramos isso? Dos Slogans criados nas agências de propagandas, que pregam conceitos exclusivistas e, por vezes preconceituosos. E infestam toda mídia. O apelo à unanimidade, que referenda a qualidade (segundo esses slogans), não se restringe a apenas produtos, mas a tudo que é comerciável, como programas de televisão, (Você não assiste a novela? Não acredito!) cantores e bandas, (Você não gosta do Calipso?) inclusive as pessoas, (aqueles populares dos filmes americanos e nossos Big Brothers).
É sempre bom lembrar de que a pluralidade é muito bem vinda em todos os lugares e situações, até na área comercial e, também, da famosa frase de Nelson Rodrigues: Toda unanimidade é burra!

O preconceito poético

Por Fabiano Fernandes Garcez | 9/16/2009 04:32:00 PM em , , | comentários (1)

Sou poeta e grande leitor de poesia, gosto, também, de ler crítica sobre isso, mas tenho percebido, já há algum tempo, que alguns críticos estão confundindo gosto pessoal com qualidade poética, o que denuncia que a poesia ainda vive em grupos de amigos que ficam se bolinando mutuamente e pior ainda, na minha opinião, é que estão pregando a forma única, ou seja, querem que os poemas atuais sejam cópias de uns poucos já conceituados.
O linguista e professor Marcos Bagno, que é conhecido pelos seus livros que denunciam o preconceito social por meio da linguagem, não faz ideia de que esse preconceito está agora na poesia. Em algumas leituras percebo que aqueles que fazem poemas com uma linguagem mais simples e menos apurada são tachados de negligentes em relação à arte poética, o que achariam, esses críticos, dos poemas de Oswald de Andrade ou Mário Quintana se publicassem hoje?
Muitos críticos pregam o hermetismo poético, poema bom é poema ininteligível para a maioria. Eu não posso concordar, por minha militância na democratização da poesia. Democratização não é a facilitação. Não. É o convite através de uma linguagem mais simples, longe da simplória, àqueles que não têm o costume da leitura de poemas, ou usando um termo de um amigo meu: Pregar aos não convertidos. O meu sonho é que a poesia ganhe as ruas, de modo mais literal possível.
Não faço apologia à poema de má qualidade, descuidada, mas prego a diversidade de linguagem, já imaginaram as pessoas nos escritórios, nos salões de cabeleireiros, ou em qualquer outra parte conversando sobre poesia em vez de conversar sobre a novela das oito? Sonho? Se depender dos críticos sim, porque o preconceito social jamais permitirá que a poesia fosse algo popular e não de uma elite.

Colocaram o bigode de molho

Por Fabiano Fernandes Garcez | 9/09/2009 06:57:00 PM em , , | comentários (0)

Há muito tempo venho observando que os homens de hoje não usam bigode, há homens com barba, cavanhaque, mas o bigode sozinho é raro. O bigode está em falta!
Segundo alguns etimólogos, os povos visigodos que viviam na Península Ibérica usavam uma marca registrada: seus bigodes, assim surgiu a palavra bigoth (bigode) derivação de visigoth (visigodos) e com o tempo passou a se referir a penugem abaixo de lábio, mas, se tratando de etimologia, há controvérsias.
Lembro que na minha infância meu pai conhecia inúmeros Bigodes. Assim, apelido, quase nome próprio. Olá, Bigode, com está? Ó não esquece de mandar um abraço pro Bigode! Chegou o Zé Bigode!
Alguns entraram para a história e viraram modelos de outros tantos, como do cantor Freddie Mercury, sempre bem aparado, outros não tão volumosos, como o do Hitler e do Chaplin que eram pequenos, menores que a boca, porém forma marcantes. O bigode chinês, fino e comprido é muito famoso em filmes, o que Marcel Duchamp fez no retrato da Monalisa também é. Aliás, mulher de bigode é raro, mas existe, como também o dito popular que diz que mulher de bigode nem o diabo pode!
O bigode português também foi bem popular, era espesso e levemente ondulado para cima, geralmente era acompanhado por uma caneta atrás da orelha e uma camiseta branca. Já ia me esquecendo do mais famoso bigode do senado. E o que dizer do escovão de Nietzsche, esse sim era um senhor bigode, inigualável, impunha respeito aonde chegava
Apesar de estar fora de moda, o bigode é algo curioso, pelo menos para mim, era um símbolo de virilidade. Será que são esses novos tempos que fizeram os bigodes desaparecer? Talvez porque agora não é mais necessário algo que represente a masculinidade do homem moderno.

Recentemente alguém me contou a história que tinha ido ao Museu do Imigrante e, não sei o porquê, precisava consultar algo na Internet, ali mesmo, quando viu uma placa que dizia: Sala de Navegação. Não teve dúvidas, entrou, mas qual não foi a sua surpresa? A sala simulava a navegação dos navios em que os imigrantes vinham para o Brasil, longe de ser o local para navegar nos mares da rede virtual.
O significado de uma palavra pode mudar em uma determinada região ou no decorrer do tempo, um exemplo é a palavra Interessante, antes era usada exclusivamente para dizer que algo interessava por ser curioso, importante, atraente, porém, hoje, quando escutamos que algo é interessante pode ser justamente o oposto, que é razoável, apenas mediano, sem graça ou pior ainda, maçante, entediante.
O grande escritor João Guimarães Rosa, que tem um dos melhores nomes de nossa literatura, escreveu em um dos seus contos, o problema de um médico para explicar a um cangaceiro o sentido da palavra: Famigerado, dita a ele por um homem do governo. O narrador vê que o destino do pobre servidor está em suas mãos e cabe a ele escolher bem as palavras para dizer ao jagunço a real acepção da palavra, de modo que não coloque em risco a sua vida e a do maledicente.
Quase todas as palavras têm inúmeros significados, às vezes deixamos alguns de lado ou apenas nos lembramos dos mais utilizados no nosso cotidiano. Foi o caso da navegadora do museu, que esqueceu que navegar se referia ao embarcar rumo a algum lugar em um navio, contudo ao confundir o valor semântico das palavras, em linguagem de dia de semana, viajou na maionese, que é um termo muito interessante.

Alguns dizem que o que move o artista é a inspiração, porém diferente de muitos, sei que ela não existe. Se existisse seria fácil demais criar algo, bastava esperar sua graça para que um artefato, uma pintura, uma escultura, ou até mesmo uma crônica surjisse. Caso contrário não seria culpa sua, a inspiração é que lhe faltou, mas não é bem assim. Segundo uma frase do iluminado inventor Thomas Edison: “A genialidade é 1% inspiração e 99% de transpiração".
Comecei a escrever meu texto sobre a descriminalização da maconha na Argentina, fiz umas 180 palavras, estava horrível, parecia redação de aluno primário, então a apaguei. Depois iniciei outra sobre algo que adoro e recorro sempre quando não tenho o que escrever: As curiosidades de nossa língua. Mas não saí do primeiro parágrafo, essa não apaguei, também não corrigi os erros, sem o termor do produto inacabado, aqui está:

Já reparou, caro leitor, que nossa língua não é lógica? Existem algumas coisas interessantes que não me tiram o sono, porém me colocam em profunda reflexão. Ao analisarmos algumas expressões cotidianas, exemplo: Sabor de pizza. Como alguma coisa pode ter sabor de pizza se a pizza é um alimento de diversos sabores? Alguns poderiam dizer que é o sabor da pizza original, ou seja, molho de tomates, queijo e orégano. No entanto se ligarmos para uma pizzaria e pedirmos uma pizza, a original, logo escutaremos um: de quê?

Assunto não me falta, poderia escrever sobre a Gripe Suína, a guerra das TVs, o Senado, ou muitas outras coisas, acontece que quero escrever algo não genial, mas diferente das informações das quais somos massacrados diariamente pelos meios de comunicação de massa, contudo pela inexistência da inspiração acabei transpirando para escrever sobre minha incapacidade de criar uma crônica.

O clima louco de São Paulo

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:48:00 PM em , , | comentários (0)

Meu pai sempre disse que em São Paulo em um mesmo dia temos as quatro estações. Não é para tanto, mas em alguns dias devemos estar preparados para tudo, por exemplo: você deve sair de casa com uma blusa ou uma jaqueta, porém com uma camiseta leve por baixo, porque ao meio-dia vai estar um calor insuportável, lá para o final da tarde chove, por isso um guarda-chuva é importantíssimo e no início da noite esfria novamente.
Quando trabalhei em uma empresa eu ia quase todos os dias a um departamento público na Marginal Tietê, no meio da manhã, entrava no carro e deixava o terno no banco de trás, dez minutos depois, ao encontrar o trânsito e o sol, a gravata ia para o banco ao lado, arregaçava as calças até os joelhos, um pouco mais de sol e trânsito lá se iam os sapatos, depois as meias, a camisa que já estava aberta e suada nas costas ia para o banco traseiro, chegando ao local era só se vestir novamente e correr para uma sala com ar condicionado.
Às vezes o que mais me chama a atenção é a maneira bem peculiar de se vestir de alguns. Além de ver botas e chinelos caminhando juntas, pessoas de sobretudo lado a lado com outras de bermuda e camiseta, tudo no mesmo ambiente. Sem contar as combinações mais surpreendentes: camiseta sem mangas com cachecol ou touca de lã, bermuda e jaqueta e o novo acessório: óculos escuros, mesmo na chuva ou à noite.
O paulistano é tão caótico em sua vestimenta quanto o clima de sua cidade, já deve estar acostumado passar frio e calor em um só dia, por isso mesmo não deve se importar de estar ou não com a roupa adequada.

As faces do nosso INHO

Por Fabiano Fernandes Garcez | 8/26/2009 05:46:00 PM em , , | comentários (0)

Algumas coisas na língua portuguesa são realmente interessantes, e uma delas é o diminutivo. Usamos esse recurso para indicar que algo (um substantivo) é menor que o normal, porém com o sufixo a palavra fica maior para indicar o menor, por exemplo: para a palavra MENINO ao colocar o sufixo INHO que indicará um menino menor temos uma palavra maior MENINHO.
Existem outros sufixos, não são muito comuns é verdade, mas existem, veja só como ficam: Casa, Muro, Pedra, Rio, Cão, Corpo, Diabo, Flauta e Frango: Casebre, Mureta, Pedregulho, Riacho, Canito, Corpúsculo, Diabrete, Flautim e Frangote. Lembrando que alguns sufixos chegam a mudar a palavra original, você sabia que o diminutivo de Cão pode ser também Cachorro? Isso é uma questiúncula (para quem não sabe diminutivo de questão.
Às vezes, o diminutivo nos serve para indicar afeto também. Quem já não teve o prazer de ser convidado para conhecer o Irmãozinho de uma namorada, chegando lá o cara tem quase dois metros de altura e dois de largura? Ou como todos já alguma vez ouviram de bocas baianas o famoso Paiiiiinho ou a santa Mãeiiiinha. Também utilizamos o diminutivo para indicar ironia, como por exemplo, em um estádio de futebol que gritamos para o time adversário: Timinho, Timinho! Porém se você, leitor, um dia me disser: Leio suas croniquinhas, não saberei se o diminutivo foi empregado para indicar a ironia (você não gosta de minhas crônicas) ou o afeto (você gosta delas), aí então terei um probleminha.
Mas o que mais me fascina é quando usamos o diminutivo para indicar o aumentativo, é isso mesmo! Então me responda o que é mais quente: Um café quente ou um café quentinho? Ou melhor ainda, o que é mais gelado: Uma cerveja gelada ou uma cerveja geladinha?


O conteúdo desta página requer uma versão mais recente do Adobe Flash Player.

Obter Adobe Flash player

Feeds RSS

Receba as novidades do Vale em Versos em seu e-mail

Livros do Vale

Apoiamos

Adicione

Arquivos