...
do retorno não pensam os que se vão
mesmo prometendo voltar
choram instantes de revoltas
na necessidade de ir em frente
de ir embora na busca do sustento
e do remédio que alenta
os que ficam
os olhos vislumbram luzes estelares
e de todos os quadrantes se sentem observados
seja o espaço o esconderijo dos ausentes
e a eles tenham que prestar contas
...
(Pedro Du Bois, POETA em OBRAS, Vol. VI, fragmento)
A penumbra
aumenta
a solidão
do artista
a moça
sofre
no papel
de corista
a prostituta
dança
na boate
espúria
pluma
fitas
tocos de cigarros
a lata do lixo.
(Pedro Du Bois, O LIXO REVOLVIDO)
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O tiro abate
a ave
sobre o campo
o cachorro
fareja o sangue
ainda quente
abocanha o corpo
e o entrega
(carne servida entre saladas
e vinhos: ao cão, os ossos).
(Pedro Du Bois, O COLETOR DE RUÍNAS)
casa velha
antiga
tombada
pelo que representa
do passado
não para ser analisada
e dissecada
para sabermos
como sobreviviam
nossos ancestrais.
(Pedro Du Bois, TRAJETO INVERSO)
Os primeiros pingos começavam a cair. De tão espessos, pareciam martelar o solo. Em pouco tempo a enxurrada varreu tudo. Em meio ao lamaçal, uma senhora que aparentava ter a vivência de mais de meio século, elevava seus braços de fartas carnes ao céu e, de olhos cheios d’água, agradecia a Deus por ter salvo um pouco do pouco que tinha. Não se deu conta de que a chuva viera do céu.


