Encontraram-se, por acaso, um músico e um poeta. Trocaram presentes. O músico ouviu nos versos, música. O poeta contemplou na música, poesia.
- acabei de chegar do trabalho - diz ele
- estou saindo para a faculdade - diz ela
Tempos depois foi imperativo a separação. Não havia saída. Só desencontros entre eles.
És o sentido da busca
quem devia chegar sem ser anunciada
minha casa e morada
és o sorriso do encontro
quando devia estar em teu corpo
meu refúgio e vulcão
és a carne quente na completeza
dos gestos e das mímicas
minha pele e maciez
és o contato esperado ao cumprimento
do melhor momento do encontro
minha âncora e certeza.
(Pedro Du Bois, A CASA DIVERSA)
- O que te desperta a dor?
- O despertador.
- Fale mais sobre isso.
- Integro a maioria. Não sonho de olhos abertos.
uma nesga
num lugar fechado
claustrofóbico
apenas uma nesga
de serra da Bocaina.
em primeiro plano
mangueiras
ao fundo quase desfocado
a serra e o sol
e a neblina.
quase ao alcance das mãos
mangueiras
e aos olhos
desfocada a serra
e o sol com neblina.
apenas uma nesga
acostumando as retinas
à luz em um lugar fechado
claustrofóbico.
Vidas regidas
por respostas
implícitas
nas perguntas
tempos poderiam
ser poupados.
(Pedro Du Bois, DESENREDOS)
