
A Revelação como Máscara e Outros Poemas
Por Pedro Du Bois | 10/01/2019 05:18:00 PM em | comentários (0)
A ilustração é um quadro meu, de que me lembrei ao ler isto, nessa parte da obra:
-
Gosto de usar na máscara o irrefletido:
a opacidade anteposta ao papel
desenhado no esboço e o gesso
na morbidez do rosto
condenado à decomposição.-
OK.
Há anos acompanho a produção de Du Bois. E esta me parece banquete pra psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e assemelhados, e pra críticos literários de melhor estirpe. Uma de minhas resenhas sobre obras anteriores do poeta gaúcho, teve – a propósito - o nome de ENIGMA DU BOIS, aqui bem mais denso, até, do que o ENTRE MOSCAS, do Everardo Norões, por que, na maioria das vezes, venceu-me. Como se fossem partes de um nouveau roman – que tinha foco nos objetos, não nos personagens – os três primeiros títulos desta edição constam como “O Vendedor de CADEIRAS”, “A Revelação como MÁSCARA”, “TUBO DENTIFRÍCIO”.
Veja que sacada:
-
Ao velarem os mortos
colocam cadeiras
junto ao caixão:
-
Corpos assentados
inclinam as mãos
sobre as bordas
deitado-
Nas outras partes do livro, tem-se achados como este:
-
TUBO DENTIFRÍCIO
-
Aprendo a escovar os dentes
antes que o almoço
me devore.-
Mais em frente:
LEVIANA HISTÓRIA DE UM SE NHOR URBANO
-
Sonha em se tornar artista
sobre o fogo: retirar do coelho a ironia
da cartola.-
-
Entediado. O filósofo repete
em novas palavras a sua velhice.-
E:
-
Simplifica em termos
eternizados o que não foi
dito.-
OK.
Mas o centro do volume, parece-me, é a REVELAÇÃO COMO MÁSCARA, em que a gente pensa logo na fábula de Esopo, “A Raposa e a Máscara Trágica”, em que a zorra dá com esse assessório do teatro grego, deslumbra-se com sua beleza, mas se decepciona com o vazio atrás dela. Em seguida vamos direto à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, ao Arquétipo Persona, onde se observa o sujeito com a possibilidade ou necessidade de criar personagens ( persona: máscara, em latim ) que podem não ter nada com ele mesmo: o papel público que o ser humano se sente forçado a apresentar.
Du Bois não é um poeta exatamente feliz com a condição humana, com as tais máscaras ou não:
-
Nem o vazio
Se revela. Nem a revelação se esvazia.-
Ou:
-
Escondo a máscara sob outra máscara-
E isto que se segue vai pra uma tácita angústia kafkiana , como em O PROCESSO:
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Sobre a minha vida despejam culpas assumidas
em lágrimas de arrependimento. Não me dizem
o crime cometido.
-
OK, de novo. Porque triste, mesmo, são estes versos de SILENCIAR:
calados em tardios
anoiteceres.
-
Como eu disse, não se trata de prato cheio, mas de banquete para os estudiosos da mente humana, inclusive críticos literários do porte de um Hildeberto Barbosa Filho.
Fica a indicação.
Por Nestor Lampros | 6/30/2019 05:12:00 PM em | comentários (0)
Confira o Tweet de @acontecencia: https://twitter.com/acontecencia/status/827466345990221825?s=09
No verde derradeiro
torres metálicas
frutificam
encontros
virtuais
nas vozes
estáticas
dos compromissos
estamos perto do progresso
e das irradiações recolhemos
o gesto despossuído: a natureza
cede ao cansaço e nos entrega
o óbolo desnecessário: reféns
do instante lemos o passado
em futuros acontecimentos
tardio
o verde restrito
na torre levantada
cala a voz.
(Pedro Du Bois, inédito)
insano
busco sentido
na minha existência
(não existo)
(Pedro Du Bois, inédito)
Quando o homem aposta
a vida
no destaque
sabe
da perdição
existente entre o baque
do corpo
antes da queda
ao corpo não cabe a escolha
em apostas que seguem donas
das aventuras em desenlaces
retornadas em formas
desproporcionais
nos atos
a memória subsiste em quem fica
imóvel no avistar o passado
sobre as pedras.
(Pedro Du Bois, inédito)
A sucessão enlaça o presente
e o arremete ao desconhecido
de onde ressurge (novo)
o novo se equipara ao todo
e se limita na repetição (do ovo)
o ovo repousa na casca
sobre a relva e nada retira (está pronto)
pronto
o corpo quebra a casca
que o separa de mim
a quem sucede.
(Pedro Du Bois, inédito)
tosco
teso
tonto
na descoberta
irritante
de que o hoje
o ontem
me aguardam
amanhã
ininterruptamente
(Pedro Du Bois, inédito)
Na hora derradeira
pergunto sobre o tempo
a chuva
a geada
a chegada do outono
em desfolhadas árvores
de alas acariciando carros
nos movimentos diários
na hora derradeira trago a imagem
do feito
e do desfeito consolo
de que apregoam preços
em feiras e flores na rua
o providencial guarda-chuva
que no semáforo o guarda apita
verdades reguladas em extremos
na hora derradeira o extremo gesto
materializa o antes
o agora
o distante intercalado
no gosto da lembrança.
(Pedro Du Bois, inédito)
Ao sorriso retribuo
músculos retesados
(o mal jogado contra o solo
em devolução
no palavrão gritado
em retribuição).
(Pedro Du Bois, inédito)
Longe estou
no longo trajeto
percorrido
do lugar da partida
ao percurso acumulado
na volta cabe a metade
do caminho que não reduz
a sensação de estar longe
o eco repete a perdição
da palavra no corpo
que retorna.
A igualdade é pressuposto
da diferença. Doentia
forma de desconhecimento. Arma
e arremesso. Corpo anteposto
ao dia anterior: juventude
e infância. Infâmia
concretada.
Iguais
em si mesmos almejam
o dia da chegada.
E ainda não
foram até a porta.
(Pedro Du Bois, em IGUAIS, Projeto Passo Fundo/2013)
O menino transita ruas
e detido em luzes
vitrina: renomeia
manequins e roupas
espreita
atrás das luzes
fechadas ao público
honra a família
e se despede
em beijos
- sempre há um manequim
piscando
os olhos e girando o pescoço
(mesmo que o menino não olhe
para trás).
(Pedro Du Bois, em OS OBJETOS E AS COISAS, Primeira Parte, Scortecci, 2006)
Subo paredes
e me instalo
o silêncio traduz
a lucidez
tenho comigo
o de sempre: por vezes
diferente
fecho a janela
e a escuridão me cerca
como me acerco do nada
abraço a minha sombra
na certeza da inexistência.
(Pedro Du Bois, inédito)
maneiras se arvoram
nos tornam reféns
das referências
encobrem e descobrem
desprazeres: acrescentam
perdas no passar dos dias
correntes
obstáculos
manias
contrapesos: maneiras
adquiridas ao medo em segredos
para nãos nos relacionar com a vida
(Pedro Du Bois, inédito)
Na última vez em que fui convidado
compareci ao evento: ser o último a sair
finalizaria o encontro e me responsabilizaria
pelo encerramento: sai pouco antes
e fiquei do outro lado da rua esperando
ser a porta fechada nas luzes apagadas
só
na escuridão
pensei o convite
nas razões da presença: tantas maneiras
de dizer não
não irei
não
obrigado
não
ficará para outra oportunidade
fui
fiquei
conversei
e me diverti
no outro lado da rua na noite esvaziada
soube do desencontro: a vida acompanha
meu empenho enquanto puder
ir embora mais cedo.
(Pedro Du Bois, inédito)
nada faço
que não seja
feito
descobertas acontecem ao acaso
repetições
são tomadas
fosse o método
exponencial
das cópias
(Pedro Du Bois, inédito)







