Alta madrugada. O Papa acorda com o coração na boca. Tivera um pesadelo no qual era Deus. Senta-se à beira do leito, limpa o suor da fronte, o peito arfando. A sua frente, um espelho... Olha, vê Deus.
Sempre repugnou a ciência e exaltou a fé. Adoeceu, não foi à igreja, mas ao médico. Antes de dormir, rogava a Deus para que abençoasse aqueles comprimidos. Deus, ressentido, não lhe deu ouvidos.
se queríamos o jardim florido
Academus
como nos descuidamos
dos trabalhos necessários
da rega diária
de arrancar o inço
das escoras dos caules
mais frágeis
sobre a grama
meninos jogam bola
com a garrafa de plástico
apenas o não pise a grama
resolveria o problema
do nosso jardim?
(Pedro Du Bois, DAS DISTÂNCIAS PERMANENTES)
Aprendeu a ler num átimo. Desde então passou a devorar livros. Ao se deparar com a palavra diálogo, estremeceu. O medo de pronunciar diabo o impediu de seguir adiante.
Quis vender a alma ao Diabo. No entanto, desistiu. Não conseguiu encontrá-lo. Indignado, decidiu se entregar a Deus. Atirou-se de um penhasco.
Felicidade é tão rara
rarefeita
feita de prazeres sutis, efêmeros.
Felicidade é quietude
tudo imponderável
estável por instantes.
Felicidade é tão clara
rara, estreita
feita de quase, só.



