Nos céus nuvens carregadas aos ventos
acorrentados em passagens conhecidas
de pássaros que voam alto junto
aos azuis e cores que nos escondem
a verdade: não há mensagem e ventos
cumprem vontades involuntárias
pelo giro do planeta Só aqueles
pássaros sabem os caminhos
entre espaços e flutuam na imensidão
com que os olhamos da terra
de onde perseguimos o encontro
em naves rígidas de programações
primárias Somos sós no vazio mostrado
e longe estivermos estaremos perto
do permitido aos corpos em carapaças
que prendem e embalam nossos gestos
Longo caminho percorrido em pássaros
que do alto localizam a presa e descem
como gostaríamos de subir ao encontro.
(Pedro Du Bois, O NASCER DOS ARES E DOS PÁSSAROS, Vol. II, 36)
Ferir a terra
esperar sua sangria
seus instintos e desejos.
Semear, só colher
sua boa vontade
seu bom fruto
e desejo.
Às vezes
dentro
meu quarto escuro
- sem muros -
Pareço ouvir
vozes.
Mas pouco importa
Não as quero ouvir mesmo.
Tinha os olhos e cabelos formados por feixes de águas negras e profundas
A pele morena e lisa em tom de terra secular e misteriosa
Lábios finos e doces como o sumo dos morangos
Sua voz era a mesma das deusas e das prostitutas de todos os tempos
E guiava o vôo dos pássaros e o rumo do sol
O vestido de neve rendado por pedras e ervas
cobria o corpo bordado em fios de ouro e pérolas
Era a moça de Santa Cruz de La Sierra
Era a moça de Santa Cruz
Na mão direita estampada a face de vários mortos
E na outra um cajado de lua e estrela
Os seios erguidos apontavam o céu
E amamentavam pequenos anjos que nasciam nas noites de inverno
Os pés descalços pisavam o tempo e as promessas
Suas lágrimas banhavam os vales em trigo e vinho
E era do seu sopro que nasciam os sonhos
Por todos os dias e noites num tecer que não se encerra
Era a moça de santa cruz de La sierra
Era a moça de santa cruz
Era a santa
Ela a cruz
Tonho França





